A REELEIÇÃO DE DILMA, DO PT.

02/11/2014 15:00

Terminado o processo eleitoral no Brasil, com a vitória de Dilma (PT), temos agora a tarefa de avaliar e compreender o cenário nacional e o que se desenha para o 2° mandato de Dilma e 4° do PT. Foi, sem sombra de dúvidas, uma das eleições mais disputadas do país. O resultado foi apertadíssimo e imediatamente as principais ruas e avenidas do país se cobriam de vermelho, tomadas pelo povo, que não queria a vitória de Aécio, com uma explosão de alegria e ao mesmo tempo de alívio.

Esse processo eleitoral praticamente se iniciou com os protestos de junho de 2013, quando milhares de pessoas motivadas pela luta contra o aumento das tarifas do transporte coletivo, saíram às ruas para pedir mudanças, por melhores condições de saúde e educação, num movimento que extrapolava a questão das tarifas, questionando com veemência, enfrentando a violência policial e os governos estabelecidos. Chamou-nos a atenção, a rejeição dos manifestantes em relação a partidos de esquerda que se apresentaram nos movimentos, como sempre fizeram. Com certeza, isso aconteceu devido a presença de setores reacionários (fascistas) que apesar de combatidos, levaram uma certa vantagem que se expressou nos resultados das urnas, mantendo uma posição conservadora, principalmente em relação aos governos dos estados e aos parlamentares. Em relação à presidência, demonstraram a vontade da mudança, representada em uma candidatura de direita (PSDB), na ilusão de por fim à corrupção e moralizando a política do país, enquanto os partidos de esquerda, mais uma vez, obtiveram uma votação pífia, mesmo com o PSOL conseguindo dobrar a votação do PSOL, obtendo 1,6 milhão de votos. Mas quem realmente conseguiu um bom proveito dessa situação foi a candidata Marina Silva, que obteve mais de 3 milhões de votos a mais que em 2010.

São Paulo, onde o movimento teve sua maior expressão, reelegeu o governador Geraldo Alkmin em primeiro turno com mais de 57% dos votos, garantindo o 6° mandato do PSDB no Estado, apesar de Alckmin não ter ganho muitos votos em relação ao seu desempenho a quatro anos.

No Rio de Janeiro, outra cidade que apresentou um grande volume de manifestações, que duraram por mais tempo que os demais pelo país, elegeu o candidato do PMDB, Pezão, vice de Sergio Cabral, contrariando as expectativas das jornadas de junho, mesmo com uma eleição mais disputada, com a decisão em 2° turno.

O 2° turno das eleições para presidente é um capítulo marcado por uma disputa onde ataques, acusações e ausência de programa de governo de ambos os candidatos e partidos foram constantes. A participação da mídia foi altamente relevante, juntamente com as redes sociais, com enfrentamentos duríssimos.

Com o fim do primeiro turno e o desenrolar de apoios aos candidatos, a polarização entre “ricos” e “pobres” desencadeou uma forte demonstração racista, homofóbica, preconceituosa e a tentativa de dividir o país em setores: o nordeste pobre contra o sul rico. Mas ficou claro que existe sim uma divisão no país, mas não é entre regiões. É entre ricos e pobres. Entre a burguesia e a classe trabalhadora.

Enquanto os candidatos disputavam a paternidade dos programas sociais, como o bolsa-família, esses mesmos programas  foram motivos de insulto e preconceito contra os beneficiados. O preconceito mostrou sua cara nessa campanha. Explícito desde o início por ser contra homossexuais, pelo discurso da moral e dos bons costumes, vimos acirrar um sentimento conservador e violento contra as minorias, encabeçado por candidatos evangélicos, ávidos pelos votos dos descontentes com as pequenas conquistas sociais e civis, como a união homoafetiva, acesso as universidades por programas de cotas, Prouni etc. O 2° turno apresentou níveis de violência nunca demonstrados com tanta facilidade. O ódio da direita contra pobres, nordestinos, estudantes cotistas, dividiu o país. Ninguém faz questão de esconder todo o rancor contra os “novos agraciados sociais”. Não bastasse a polarização baseada em preconceitos de várias nuances, os ataques da direita contra a corrupção petista, rechearam ainda mais o bolo eleitoral. Com a conivência da imprensa, que camuflou as denúncias contra o PSDB e expondo diariamente os escândalos envolvendo o PT, a campanha ganhou uma violência extraordinária contra os militantes e eleitores petistas, onde todos são vistos como corruptos, burros e idiotas. Os debates entre os candidatos nada acrescentaram.  Até parecia que defendiam a mesma coisa. Apenas acirraram as trocas de acusações de corrupção.

O discurso da presidenta reeleita após o anuncio do resultado, foi marcado pela “busca do diálogo”. Repetido em entrevista num dos principais telejornais, ao vivo, Dilma não deixou de se referir à campanha do Plebiscito pela Reforma Política, implementada pelos militantes do PT e pela CUT e reafirmou a necessidade de abrir diálogo com todos os “setores” para promover a reforma política e a tributária. Citou o empresariado, o mercado financeiro e os banqueiros, mas em nenhum momento sequer fez menção à classe trabalhadora nesse “diálogo”.

Mais uma vez, os trabalhadores, a juventude e os Movimentos Sociais demonstraram seu apoio ao partido, unificando-se contra o ataque da direita, a despeito da burocracia forte e pesada que domina o partido. O PT segue sendo o referencial para a classe trabalhadora, que mesmo indignada com tantos escândalos, fez campanha e votou pela continuidade das políticas sociais e contra o avanço da direita, o “retrocesso”. Apesar da degeneração, o PT sai vitorioso do duro enfrentamento com a direita, mas tem um grande desafio pela frente: governar um país dividido, enfrentando a oposição de grupos econômicos nacionais, a mídia e um congresso cada vez mais conservador. Certamente veremos que o governo petista será obrigado a atacar mais veementemente a classe trabalhadora. A política de austeridades do FMI deverá se fazer presente, acirrando o embate contra os governos e patrões. Além disso, temos também as manifestações reacionárias que não foram isoladas e parece que não terminam por aqui, correndo o risco de dar origem a movimentos fascistas. Nesse quadro, o próximo governo Dilma vai caminhar no “fio da navalha”.

Resta-nos a questão em torno da esquerda. Diante desse quadro, temos pela frente o dever de unificar e organizar a luta dos trabalhadores contra os possíveis ataques que o novo governo poderá impor para atender aos interesses dos grupos dominantes para assegurar a governabilidade. O papel dos partidos de esquerda com representatividade será crucial no próximo período.  Se nos mandatos anteriores, no período Lula, o governo já não estava em disputa, agora a situação é mais complexa ainda: a garantia de direitos, que aos poucos vem sendo retirados e que, diante de uma pressão imposta pelo cenário pós-eleições, poderão sofrer ataques ainda mais contundentes.

OPOSIÇÃO DE ESQUERDA

Durante 12 anos a esquerda vem golpeando o governo petista e próprio PT. Porém, até agora não se construiu algo que realmente leve a classe trabalhadora ao poder. Não se conseguiu sequer a unidade para organizar uma oposição de esquerda ao governo do PT. Sabemos muito bem que temos nossas diferenças e que muitas delas são históricas e de princípio. Mas isso não pode nos impedir de criar uma pauta mínima que nos unifique. Precisamos urgentemente convocar um Encontro Nacional de Organizações Socialistas, que tenha o compromisso de construirmos a oposição de esquerda. Deixamos claro, desde já, que a oposição de esquerda não tem como objetivo ser o embrião de um partido revolucionário. Por isso, podemos construir uma pauta mínima para todos nós, independentemente de nossas divergências históricas, aplicando a tática da frente única e ao mesmo tempo procurando construir juntos um projeto maior, um projeto socialista, para a esquerda e para toda a classe trabalhadora.

Assim, podemos marchar juntos, oferecendo uma alternativa unificada para a classe trabalhadora, tanto no movimento sindical, quanto nos movimentos sociais. É essa alternativa que servirá para enfrentarmos os ataques desferidos pelos governos e patrões, como também, para enfrentar possíveis ataques fascistas que mostraram sua cara durante a campanha do candidato derrotado Aécio Neves (PSDB).