As lições do Chile

03/10/2013 18:09

 

Há 40 anos do golpe militar do Chile

Rico Rodrigues

 

 

No dia 11 de Setembro o mundo lembra do ataque ao World Trade Center em Nova York, Estados Unidos, em 2001. Mas existe também outro 11 de Setembro, que as elites dos Estados Unidos e de outros países capitalistas não gostam tanto de lembrar: no 11 de Setembro de 1973 o exército chileno, sob a liderança do general Augusto Pinochet, derrubou o presidente socialista Salvador Allende, democraticamente eleito, e instalou umas das mais sangrentas ditaduras militares de América Latina.

 

Esse golpe militar terminou radicalmente com os sonhos de milhões de socialistas, em todo mundo, da implementação do socialismo no Chile. O regime de Pinochet cancelou imediatamente os direitos democráticos, colocou os partidos de esquerda e os sindicatos na ilegalidade e proibiu greves e manifestações. Os salários foram reduzidos até pela metade e a jornada de trabalho aumentada. Essas medidas mostram claramente para quem o assassino Pinochet trabalhava: para os capitalistas e o Imperialismo.

 

A análise do golpe no Chile e sua história são muito importantes, especialmente para a América Latina. Acabou principalmente com muitas ilusões sobre a possibilidade de “implementar o Socialismo na via pacífica” e da política de “frente popular”. Essa tentativa custou a vida de milhares de pessoas durante a ditadura, além de milhares de presos, torturados e exilados.

 

A vitória eleitoral da Unidade Popular

 

Nos anos 1960 o Chile foi atingido por uma crise econômica que levou a pior das condições de vida da grande maioria dos chilenos. O Chile compartilhava as principais características dos países da América Latina, tais como a dependência da economia e da política do Imperialismo, a economia agro-exportadora, o domínio das oligarquias reacionárias e a concentração de terras. A mineração, responsável por 80 % da receita do país, estava completamente sob controle de multinacionais dos EUA. Essa situação levou a um aumento de protestos, greves e ocupações de terra, que foram violentamente reprimidos pelo governo do Partido Democrata Cristão (PDC), tal como ao apoio dos partidos de esquerda.

 

Nas eleições de 1970, Salvador Allende, candidato da Unidade Popular (UP), venceu justamente com 36,5 % dos votos, frente a 35 % para Jorge Alessandri do Partido Conservador e 27,8 % para Rodomiro Tomic do PDC. Em Dezembro de 1969 a UD tinha adotado um programa que propunha várias reformas, entre elas a nacionalização de setores chaves da economia - principalmente a mineração -, uma reforma agrária e aumentos nos salários.

 

Unidade Popular foi uma aliança entre o Partido Socialista e o Partido Comunista, juntos com outros partidos menores burgueses como o Partido Radical e o Movimento de Ação Popular (um racha do PDC). Portanto, foi um dos exemplos mais clássicos de uma “frente popular” – uma aliança entre partidos operários e partidos burgueses. 

 

Para poder manter essa aliança, a Unidade Popular precisava fazer importantes concessões à classe dominante, como a manutenção da propriedade privada sobre a economia (salvo o grande capital estrangeiro) e do estado burguês, inclusive seu aparelho de repressão. Por isso o programa da UP não foi um programa revolucionário, se não um programa burguês reformista de esquerda. Assim Allende esperava reformar o país num sentido socialista e ao mesmo tempo conformar a burguesia nacional e o exército, que ficariam leais ante o governo constitucional – essa política foi denominado por ele de “via chilena ao Socialismo”.

 

Nesse curso ele foi apoiado energicamente pelo Partido Comunista, que praticava a política stalinista chamada de “duas etapas”. Primeiro viria um período de revolução burguesa, no qual se precisa conter as mobilizações e o programa das massas as margens do Capitalismo, e num distante futuro viria numa segunda etapa a revolução socialista. Só que a segunda etapa nunca chegou.

 

O governo Allende

 

Para ser eleito presidente Allende ainda precisava dos votos do PDC no Congresso, que pensaram assim “moderar” definitivamente a sua política. Mas as massas oprimidas festejaram a vitória nas ruas. Uma canção da época dizia: “Porque, desta vez, no se trata de cambiar un presidente. Será el pueblo que construya un Chile ben diferente.”

 

E Allende tomou no início do governo, diferente do pensado pela burguesia e seus partidos, uma atitude séria. A mineração e o sistema financeiro foram nacionalizados, uma reforma agrária anunciada e, além disso, foram introduzidas normas sobre os monopólios industriais e as empresas de telecomunicação. Assim, no primeiro ano da presidência de Allende, o desemprego caiu pela metade, os salários subiram entre 35 e 60% e a reforma agrária foi estendida a 30% das terras. Também o setor industrial cresceu 12% e o PIB 8,3%.

 

Os primeiros sucessos tanto causaram entusiasmo na classe trabalhadora e entre os camponeses, quanto assustaram a classe dominante. As forças burguesas começaram a se organizar. O movimento fascista Patria y Libertad (PyL) virou uma organização principal para todas as forças reacionárias. Os EUA, assustados pelas nacionalizações da mineração, abusaram de seu poder para colocar pressão sobre os preços de cobre no mercado mundial. Créditos internacionais foram negados, e também capitalistas chilenos começaram a retirar capital do país. O resultado foram caixas estaduais vazias. O governo reagiu com um aumento de impressão de dinheiro, causando uma alta inflação, que explodiu para 163,4 % em 1972 e 325 % em 1973. Em 1972 os empresários organizaram um lockout e paralisaram o transporte dos caminhões, que levou a uma crise de abastecimento.

 

A crise do governo

 

Tudo isso levou a uma crise econômica e política e aumentou a insatisfação também entre vastas camadas da classe trabalhadora e, sobretudo, da pequena burguesia e das classes médias. Por um lado os capitalistas e o Imperialismo sabotaram a economia, por outro lado as massas se radicalizaram.

 

A reforma agrária não foi continuada numa maneira consequente, e mais e mais camponeses e trabalhadores sem terra começaram a ocupar terrenos e organizaram organismos para sua autodefesa. Os trabalhadores e as trabalhadoras se organizaram em comitês nas fábricas e nos bairros, montaram milícias operárias e ocuparam fábricas – no final, cerca de 1.000 (mil) empresas foram ocupadas e dirigidas sob controle operário.

 

Tudo isso mostrou que uma batalha final se estava acercando. Ou a revolução ia avançar e vencer – expropriar toda a burguesia, instalar o monopólio do estado sobre toda a economia, organizar a produção e o abastecimento sob um plano democrático, desmantelar o estado burguês e o exército, acabar com as organizações fascistas, tudo isso apoiado nos comitês e nas milícias operárias e camponeses – ou a reação ia retomar o comando. 

 

Porém, o governo ficou cego ante isso e seguia com sua política de conciliação. Allende ainda acreditava na sua “via chilena ao Socialismo”. Chamou o povo para acalmar a situação e rejeitar as ações chamadas “radicais de esquerda” (quem gritava mais alto nesse sentido era o Partido Comunista).  Ainda em Junho de 1973 uma mobilização de massas impediu uma marcha a Santiago, organizada pela reação. Allende mesmo chamou para as ruas e para a ocupação de fábricas.

 

Já um mês depois, em Julho, sob a pressão do PDC e do exercito, Allende passou a “Lei pela controle de armas”, que previa o desarmamento das milícias operárias e camponesas. O próprio governo mandou a polícia e o exército para exercer o desarmamento – e assim a desarmar a revolução e a defesa das massas mobilizadas.

 

Em Agosto, Allende fez uma última mudança do governo, cedendo ministérios para políticos burgueses e militares, querendo mostrar sua moderação. E também promoveu o próprio Augusto Pinochet ao cargo de chefe do exército.

 

O fim

 

Mas tudo isso não adiantou nada. O governo Allende já tinha ido longe demais. Quando o exército proclamou o fim do governo, bombardeou o palácio da Moneda (a sede do governo) em Santiago e desencadeou uma onda de terror sobre todo o país no dia 11 de Setembro de 1973, o povo já estava praticamente desarmado e desmobilizado. Não tinha mais condições para organizar a resistência contra o golpe.

 

No mesmo dia, na sua última gravação, Allende dizia: “Neste momento decisivo a única coisa que posso dizer a vocês é que aprendam a lição. O capital estrangeiro, o imperialismo, criou o clima para que as forças armadas rompessem sua tradição (…)”.

 

Poucas horas depois o presidente foi morto.

 

A “meia revolução” foi seguida por uma “contra-revolução completa”. Milhares de ativistas de esquerda, trabalhadores e trabalhadoras, sindicalistas e camponeses foram presos, torturados e assassinados. O estádio de Santiago virou um presídio político e uma casa de assassinatos, onde foram confinados os cadáveres. Os números oficiais são de mais de 40.000 (quarenta mil) “vítimas diretas”, dos quais 3.065 mortos e desaparecidos. Mas outras fontes falam de números muito maiores, chegando até 50.000 assassinados.

 

A tentativa de conciliar os interesses de classe do proletariado e da burguesia, foi como misturar fogo e água, tinha fracassado completamente.

 

Chile hoje em dia

 

Nem se precisa mencionar - porque todo mundo já sabe - que o governo dos Estados Unidos, sobretudo através da agência secreta CIA, apoiou e ajudou a planejar o golpe. O novo governo militar foi reconhecido imediatamente e apoiado financeiramente.  A agência secreta do governo Pinochet, a DINA, cooperou estreitamente com a CIA para organizar o terror. Todas as reformas econômicas e políticas do governo Allende foram canceladas e revertidas.

 

Depois da consolidação do regime militar o Chile virou um “campo de experimentação” para a política neoliberal. Foi um dos primeiros países a privatizar os sistemas da saúde e da educação e a “desregulamentar” o mercado de trabalho.

 

A ditadura terminou em 1990 depois de um plebiscito presidencial, convocado pelo próprio Pinochet. Mas os principais pilares do sistema militar ficam vigentes até hoje. A aliança de partidos Concertación, a qual também pertence o Partido Socialista de Salvador Allende, continuou a política neoliberal do regime militar nas duas décadas no poder (1990 até 2010). A constituição vigente é ainda a da ditadura, adotado em 1980.

 

Muito tempo o Chile ficou calmo sob essas circunstâncias e com quase duas décadas de duríssima repressão nas costas. Mas nos últimos anos isso começou a mudar. Em 2011 teve uma grande mobilização contra a construção de uma hidroelétrica no sul do país, atingindo e expulsando o povo indígena dos Mapuches de suas terras. Um pouco depois se formou um movimento dos estudantes, tanto de faculdades quanto de escolas, para protestar contra o sistema neoliberal de educação. Esse movimento é ativo até hoje e confronta frequentemente o aparelho de repressão – o mesmo dos tempos da ditadura.

 

Isso demonstra que as circunstâncias também começam a mudar no “país das maravilhas neoliberais”, como também em toda América Latina.