CHACINA EM BELEM

09/11/2014 23:55

Após morte de policial, ROTAM promove chacina em Belém: oito mortes são confirmadas e jornais locais especulam que haja até 20 vítimas fatais

A Ronda Ostensiva Tática Metropolitana (ROTAM) realizou uma chacina em Belém na madrugada de terça (04) para quarta (05) em retaliação à morte do cabo Antônio Marco da Silva Figueiredo (43 anos). Suspeita-se que o policial era ligado à uma milícia no bairro do Guamá e ficou conhecido pelos “esculachos” e execuções de muitos jovens nas periferias da cidade, fato que teria feito sua morte ser amplamente comemorada em diversos bairros periféricos.

Os números ainda são pouco precisos mas um jornal local aponta pelo menos 20 mortos e o Governo do Estado, chefiado por Simão Jatene (PSDB), já reconheceu oito das mortes esta manhã. O Centro de Perícias Científicas Renato Chaves (CPCRC) registrou quatro homicídios no bairro da Terra Firme e um homicídio nos bairros do Marco, Guamá, Jurunas e Sideral, respectivamente. Todos esses são bairros pobres da capital paraense.

No bairro da Terra Firme, o cobrador de ônibus Bruno de Souza Gemaque, de 20 anos, foi assassinado na rua São Domingos. Na passagem Brasília, a vítima foi um adolescente de 16 anos e, na passagem Gabriel Pimenta, Jefferson Cabral Reis, de 27 anos, também foi executado friamente.

A ROTAM anunciou que “a caça começou” em sua página oficial nas redes sociais e o sargento Rossicley Silva chegou a convocar “o máximo de amigos para dar resposta” através de seu Twitter pessoal. Um arquivo de áudio revela policial afirmando que a ordem era fazer uma “limpeza na área”. Quanto à isso o Comando Geral da Polícia Militar afirmou que vai “apurar eventuais denúncias” e submeter à “Corregedoria”, órgão famoso por raramente punir alguém.

De acordo com o jornal local Diário Online, em um dos áudios um suposto policial anunciava: “Senhores, sério, por favor, façam o que for preciso, mas não vão para o Guamá nem para Canudos nem para o Terra Firme hoje à noite. É uma questão de segurança dos senhores, tá? Mataram um policial nosso, e vai ter uma limpeza na área. Ninguém segura ninguém, nem o coronel das galáxias”.

Durante toda a madrugada, denúncias ocuparam as redes sociais, relatando ações, supostamente de milicianos, em diversos bairros, gravações de áudios e vídeos com flagrantes das ações se espelharam.

O governo do estado confirmou as oito mortes na noite desta terça-feira 4. De acordo com a nota, o Centro de Perícias Científicas Renato Chaves (CPCRC) registrou quatro homicídios no bairro da Terra Firme e outros quatro homicídios nos bairros do Marco, Guamá, Jurunas e Sideral. Mas há relatos de que há muitos outros mortos.

O comunicado diz ainda que o cabo Figueiredo “foi morto em circunstâncias ainda em investigação e não estava em serviço”, mas que “os comandos de policiamento da capital foram acionados para identificação e captura dos criminosos.”

Os oito corpos que deram entrada no CPCRC aguardam identificação e as mortes serão investigadas pela Divisão de Homicídios da Polícia Civil.

Segundo comentário feito pela própria ROTAM na postagem em que afirma que a “caça começou”, os mortos já são 35 e os municípios de Ananindeua, Marituba, Santa Izabel e Castanhal também estão na mira da corporação.

Contraditoriamente, esse desastre na segurança pública paraense acontece simultaneamente ao 13º Encontro da ONU sobre Prevenção ao Crime e Justiça, sediado em Belém nos dias 03 e 04 de novembro. Importante lembrarmos que essa chacina, promovida por policiais militares movidos pela sede de vingança, traz à tona a completa ineficácia da guerra às drogas e a necessidade real de uma discussão séria sobre a legalização das drogas no Brasil. A motivação de todo esse sangue derramado foi a morte de um policial em confronto com o tráfico por força da guerra às drogas. Legalizando e regulamentando, tira-se as drogas das mãos do tráfico e as coloca onde deve: dentro das drogarias.

Provavelmente os grandes noticiários ainda construirão suas narrativas a partir da “guerra necessária” contra o tráfico e exaltarão o policial morto.

Trata-se de uma das maiores chacinas dos últimos tempos. E, ao que parece, devidamente anunciada.

 

 

OBS.: Matéria obtida do Movimento pela Desmilitarização da PM