Conjuntura atual – Qual a tática frente aos “governistas”?

26/04/2015 22:13

Rico Rodrigues, Abril de 2015

 

Frente às manifestações recentes e à conjuntura política atual a esquerda brasileira enfrenta um dilema. Por um lado reconhece que as mobilizações pelo impeachment de Dilma, lideradas pelos grupos “Movimento Brasil Livre”, “Vem para rua” e outros, são reacionários. Por outro lado não quer apoiar e defender o governo do PT.

Frente a isso uma boa parte da esquerda não quis participar das primeiras mobilizações, do dia 13 de Março, lideradas pela CUT, o MST e a UNE. Isso aconteceu com o PSOL, o PSTU, o PCB, a LER-QI, entre outros. A argumentação para isso em geral é que as manifestações eram para defender o governo, e esse não merece esse apoio, por defender o capitalismo, governar em favor da burguesia e agora aplicando um ajuste fiscal, que significa novos ataques à classe trabalhadora. Assim, uma boa parte da esquerda ficou fora do palco nas maiores manifestações que houve depois de Junho de 2013.

Mesmo que essa situação já tenha passado, vale a pena discutir esse posicionamento porque esse dilema vai continuar a ocupar um bom espaço na discussão no movimento operário, dado que a maior parte da “esquerda” ou “centro-esquerda” hoje em dia na América Latina é liderada por frentes populares.

Nós achamos que a não participação no dia 13 de Março foi um erro. Não porque tenhamos ilusões na CUT ou no PT, ou porque achamos necessário defender o governo na atual situação. Nem porque achamos que um golpe está sendo preparado pela direita. A questão chave é a correlação de forças e a liderança do reformismo sob a classe trabalhadora. A CUT, o MST e a UNE, entre outras organizações, mobilizaram uma boa parte de suas bases no dia 13 de Março, e muitos deles obviamente sentem a necessidade de sair na rua frente a uma mobilização da direita. Em São Paulo 50.000 foram às ruas. Essa base, que por enquanto está convencida a defender o governo Dilma contra ataques da direita, também entra em contradições e conflitos com a política do governo. Isso se manifesta atualmente na pauta da revogação das MPs 664 e 665. A própria liderança da CUT enfrenta problemas em simplesmente “defender” o governo, por mais que queira. Assim, a pauta oficial das manifestações não foi “defender o governo”, mas cobrar uma reforma política, a defesa da Petrobras, a revogação das mencionadas MPs etc. Quer dizer que não eram em defesa do governo Dilma? Eram sim, sem dúvida. Porém, isso não significa que participar delas necessariamente significa se alinhar com essa política. Ao contrário, as organizações da esquerda deveriam mostrar forte presença nessas manifestações, denunciar visivelmente com faixas e banners o governo Dilma e agitar a base das organizações de massa presentes.  

Não participar das mobilizações da CUT e companhia nesse momento significa simplesmente deixar o campo livre para os “governistas”. Ainda que a posição de ausência das manifestações do dia 13 de Março reúna as citadas organizações, o conteúdo e a justificativa variam. A LER-QI simplesmente denunciou as manifestações e declarou que seria necessário “uma organização independente” frente a essa situação:

“Por isso, não estaremos nas manifestações do dia 13 de março que só servem para lavar a cara do governo, sua política de ajustes e a corrupção, mas também não estaremos na manifestação do dia 15 de março, que é parte da política da oposição tucana que critica o governo, mas deseja mais ataques, mais retirada de direitos e mais privatizações. É necessário que construamos uma política dos trabalhadores a partir das mobilizações e das greves, como as que apontaram os professores nacionalmente, começando por organizar encontros estaduais para preparar as lutas e rumar a uma exigência de que as grandes centrais convoquem uma paralisação nacional dos trabalhadores para barrar os ajustes do governo.”[1]

Sem dúvida é correto que precisamos construir “uma política dos trabalhadores a partir das mobilizações e greves”. Provavelmente ninguém na esquerda rejeitaria isso. Agora, o artigo inteiro perde completamente a questão central que se coloca frente à esquerda revolucionária: Como conseguir realmente quebrar a liderança dos chamados “setores governistas”, as lideranças reformistas PTistas e CUTistas sobre a base organizada da classe trabalhadora? O fato é que a CUT e companhia ainda conseguem botar milhares nas ruas, eles continuam liderando os setores mais expressivos da classe trabalhadora no Brasil, e é necessário aplicar táticas frente a essa situação. Por que não agitar as bases da CUT para “organizar encontros estaduais” e “rumar a uma exigência de que as grandes centrais convoquem uma paralisação nacional dos trabalhadores para barrar os ajustes do governo.”?

Assim, o PSTU mostrou uma perspectiva bem mais prática que a LER-QI, lançando um chamado às direções da CUT, MST e UNE a romper com o governo e organizar uma greve geral contra a política de cortes. Agora todos os esquerdistas vão gritar: O PSTU tem ilusões na CUT! Sempre sabíamos que na verdade eles querem se alinhar com eles! Porém, chamar essas lideranças a finalmente romper com o governo não significa necessariamente ter ilusões nessas lideranças. Nem significa que se acha que essas lideranças possam realmente simpatizar com essa ideia. Significa que o PSTU avalia correto que a política de apoio ao governo dessas lideranças encontra os seus limites. Tem milhares de trabalhadores e trabalhadoras na base da CUT e do MST que ficam putos com a política do governo e querem lutar contra a política cada vez mais neoliberal. Se o PSTU e a esquerda em geral chama, nessa situação, para romper com o governo e organizar a resistência juntos, essas lideranças teriam a necessidade de se justificar frente a isso (pela correlação de forças provavelmente essa necessidade não se manifesta, o que não torna a política incorreta e, sobretudo, é preciso agitar as bases com isso).

Infelizmente, o PSTU ficou no meio de caminho e também não quis participar no dia 13 de março, entrando numa contradição. Se se quer chamar as lideranças para romper com o governo, que lugar seria melhor para agitar a base desses movimentos e organizações que nas manifestações? O PSTU declarou:

“Poderíamos e deveríamos estar juntos na construção de um processo de lutas para derrotar a política econômica do governo do PT, do Congresso e da oposição de direita? Sim, mas desde que fossem manifestações para enfrentar Dilma e o Congresso e não para proteger o governo. Infelizmente, não é essa a realidade que se apresenta. E isso não interessa em nada a luta em defesa de nossos direitos.”[2]

Essa contradição fica ainda mais clara frente às próximas manifestações, do dia 15 de abril. Porque essa vez todos chamaram para participar. Claro, vão dizer, agora a situação era diferente. O PSTU destacou que se tratou de “Paralisação Nacional contra a PL das terceirizações e as MPs de Dilma!”[3]

Agora, esse não era o lema oficial das manifestações. O PSTU acha que os mesmos setores que mobilizaram para essa paralisação, CUT, MST, UNE e outros “governistas”, não defenderam o governo igual como faziam no 13 de Março? Que agora tinha a pauta unificadora do PL 4330, que, aliás, tinha em Março também, não muda em nada essa orientação. O PSTU poderia igualmente ter chamado com um lema parecido para o 13 de março. 

Também o maior partido de esquerda ao PT no Brasil, o PSOL, subiu no barco agora, mas igualmente sem oferecer uma avaliação crítica de não ter participado em março. Ao contrário, o PSOL avaliou:

“Assim, consideramos correta a posição tomada pelo PSOL de não se incorporar nem às manifestações em defesa do governo Dilma – um governo que retira direitos dos trabalhadores e aplica um brutal ajuste fiscal – nem às manifestações patrocinadas pela Globo e que propõem saídas reacionárias, uma vez que a simples substituição da atual presidente não promoverá qualquer mudança positiva no conteúdo das políticas aplicadas contra os trabalhadores.”[4]

Na verdade, esse mesmo argumento valeria igualmente para as manifestações do dia 15 de Abril. Eles acham que não tinham os CUTistas lá defendendo o governo Dilma? Que o Vagner Freitas e Co. não saiu a proclamar que “agora é hora da Dilma governar”? A correlação das forças continua a mesma, e uma boa parte das lideranças e também dos manifestantes vai continuar querendo defender o governo Dilma nas mobilizações que houve e nas que tem na frente. O que mudou é que depois das grandes mobilizações da direita no dia 15 de Março, ninguém quer mais ficar fora. Ninguém mais defende que este seria o momento para ficar em casa ou fazer as próprias mobilizações, que seriam válidas para fortalecer a própria militância, porém não entrariam no jogo de forças políticas no país.

Os defensores da não participação no dia 13 de março vão argumentar que as manifestações do dia 15 de abril tinham um caráter diferente que aquelas do março. Sim, tinham, foram bem mais críticos frente ao governo Dilma. Porém, eles foram assim exatamente porque a esquerda mobilizou nesse sentido. Foram assim pela mobilização do MTST, que também ficou fora no março, de Conlutas/PSTU e do PSOL. Se todos eles tivessem estado presente no dia 13 de março, essas manifestações também teriam sido de outra cara.

Assim o PSTU agora declara: “Dia Nacional de paralisações sacode o país contra as terceirizações e as MPs do governo Dilma”[5]. Será que os “governistas” que participaram do ato vão concordar com essa avaliação? De qualquer jeito, Vagner Freitas, presidente da CUT, declarou no ato na Avenida Paulista em São Paulo que a CUT ai fazer “uma greve nacional, se for necessário”, para barrar o PL 4330. É importante que a base cobre essa greve da liderança, e que cobre também que incluía a uma vez a política neoliberal do governo Dilma. A esquerda revolucionária deveria agitar nessa direção, cobrar a ação dos governistas frente as suas próprias bases, em vez que simplesmente denunciar. 

Nós defendemos a unidade na ação da esquerda e a aplicar a tática de frente única frente as lideranças reformistas. Existem muitas pautas que toda a esquerda compartilha e precisamos defender frente a uma direita raivosa, e mesmo contra o governo. Precisamos cobrar das lideranças da CUT, MST etc. que rompam com o governo e mobilizem os trabalhadores e as trabalhadoras contra os ataques, seja eles do congresso “conservador” (PL 4330) ou do governo Dilma (MP 664 e 665). Precisamos colocar essas lideranças numa situação delicada, por não poderem fugir da luta que eles na verdade não querem avançar. Isso seria uma tática que aproveita as contradições no campo reformista e seria capaz de combater a hegemonia do reformismo PTista e CUTista sob a classe trabalhadora frente a essa situação.

 

 



[1] http://www.palavraoperaria.org/Organizar-a-insatisfacão-popular-de-forma-independente-do-governo-e-da-direita

[2] http://www.pstu.org.br/node/21338

[3] http://www.pstu.org.br/node/21382

[4] http://psol50.org.br/site/noticias/3189/nem-direita-nem-governo-contra-o-ajuste-de-dilma-e-levy

[5] http://www.pstu.org.br/node/21393