G20: o que eles concluíram disso - além das despesas?

31/07/2017 19:06

Martin Suchanek, Neue Internationale 221, julho de 2017 Sáb, 15/07/2017 - 08:37

 

"Concordamos que não concordamos". Isso resume os resultados da cúpula do G20.

Não surpreendentemente, Donald Trump não mudou de opinião sobre o Acordo de Alterações Climáticas de Paris de 2015 e os EUA não voltará a juntar-se a ele. O resto do G20 quer cumpri-lo, pelo menos em princípio. A Turquia, no entanto, pede uma ratificação final para esclarecer seu próprio status no âmbito do acordo. Se fosse classificada como um país industrializado, teria que gastar somas muito maiores do que um "país em desenvolvimento" que poderia desejar receber dinheiro.

A voz da burguesia alemã, o Frankfurter Allgemeine Zeitung pronunciou a cúpula como um sucesso, porque sua declaração final confirmou o compromisso com o livre comércio. Afinal, mesmo os EUA, se com algumas adições "relativizantes", concordaram. Acima de tudo, foi uma coisa boa para todos os 20 líderes que se encontraram.

"Os chefes de Estado e de governo de 19 países industrializados e emergentes, bem como representantes da EU (União Europeia) encontraram-se em uma situação mundial difícil e analisaram as principais questões da política internacional. Que nem sempre foram de um só coração e mente está na natureza do assunto. Isso faz com que seja mais bem-vindo". (Klaus-Dieter Frankenberger, G-20 summit was not a bust, FAZ, 9 July 17, http://www.faz.net/aktuell/g-20-gipfel/kommentar -g-20 summit-war-no-bust-15098952.html)

O que foi alcançado? Putin e Trump relataram ter melhorado seu "clima de conversação". Eles até anunciaram um acordo surpreendente para combater a "cibercriminalidade", mas isso não sobreviveu ao retorno da Airforce para os EUA. Mais importante ainda, eles negociaram outro "acordo" sobre a pacificação reacionária da Síria, um chamado armistício.

Provavelmente não foi coincidência que a reunião desses homems tenha ocorrido ao mesmo tempo que a apresentação do programa de parceria G20/UE-África. Os dois "homens fortes" queriam claramente mostrar a Angela Merkel que tal acordo não era realmente muito importante e, acima de tudo, eles queriam garantir que ela não tivesse um estágio no qual se apresentar como o "salvador" de um continente.

O FAZ (Jornal Geral de Frankfurt)¹ também aponta, com razão, que a cúpula não só não produziu resultados ótimos e tangíveis, mas que as discussões bilaterais estavam na frente de batalha.

O governo alemão pode, no entanto, apontar alguns aspectos positivos: A grande maioria do G20 não entrou no "campo de Trump"; países como a Arábia Saudita ou a Turquia não se opuseram abertamente ao Acordo de Proteção Climática de Paris; e a China e a UE ainda podem pretender desempenhar um papel de liderança na reestruturação industrial.

É certo que qualquer ação sobre a questão climática, como em todas as outras grandes questões, será determinada pela crescente concorrência e na luta pela redivisão do mundo. É por isso que o G20 não conseguiu produzir resultados realmente tangíveis. Os desenvolvimentos na economia mundial e na política internacional apontam para o agravamento da instabilidade e das crises e, com eles, disputas cada vez mais abertas sobre os pontos cada vez mais explosivos da disputa, seja na Península Arábica ou na Coréia do Norte.

Em vista dos escassos resultados, a declaração oficial do governo alemão lê como uma tentativa desesperada de fazer uma virtude por necessidade: Todas as diferenças e argumentos foram pelo menos "abertamente" reconhecidos. O que é muito mais importante é que a cúpula expressou claramente as características-chave da situação mundial:

1. Os EUA não podem mais reivindicar ser a nação politicamente líder do G20 ou mesmo do "mundo ocidental", pois seus rivais ainda estavam preparados para aceitar sob Obama.

2. O governo Trump repetidamente e abertamente tentou minar os objetivos políticos da UE e da Alemanha antes e durante a cúpula. Trump não apenas se encontrou com as delegações russa, saudita e turca antes da cimeira do G20, mas também com os governos polaco, eslovaco e húngaro.

3. Macron, por outro lado, formulou abertamente seu direito a um papel de liderança global mais forte, em parte como um substituto do imperialismo alemão, cujo governo teve que desempenhar o papel "não partidário" do anfitrião da cimeira.

4. Em qualquer caso, agora é claro que o bloco ocidental sob a hegemonia dos EUA tornou-se mais frágil, novas "alianças" tomam forma à medida que os poderes que estão lutando para dividir e controlar o mundo se reposicionam.

5. Quão contraditória é toda essa situação que pode ser vista claramente pelas relações entre os EUA e a Rússia, que ambos englobam os acordos conjuntos (Síria) e a continuação de uma nova Guerra Fria (Ucrânia, rearmamento).

A estratégia de Merkel falhou

O governo federal alemão e, acima de tudo, a chanceler Merkel, esperavam usar a cimeira do G20 como seu próprio palco político. Em meio a um mundo cada vez mais incerto, eles queriam apresentar-se e seus aliados, a França, a Itália e a UE como polo de estabilidade.

Os conflitos crescentes entre os grandes poderes expuseram este ato pelo que é, uma grande fraude. Os interesses econômicos e geoestratégicos do imperialismo alemão estão por trás disso. Por um lado, isso se reflete no apelo ao livre comércio, à política climática, à ajuda para os investidores na África, por outro, na tentativa de apresentar o imperialismo militarmente fraco, que é ele mesmo impactado pela crise da UE, como um "negociador", como um "intermediário honesto". O governo federal, no entanto, não se atreve a falar de sucessos nesta frente.

Para a massa da população, isso levanta uma questão: Qual foi o objetivo de tudo isso? Por que convidar pessoas como Trump que claramente não pretendiam chegar a nenhum acordo? Por que não apenas realizar uma conferência de vídeo, se todos precisam "falar um com o outro"? E o que foi decidido em todas as conversas secretas por trás de portas fechadas, além de mais imposições para a massa da população mundial?

Em suma, há um problema de legitimação para o governo alemão. Isso também se refletiu nos relatórios cada vez mais críticos sobre a repressão policial. Em "Hamburgo cosmopolita", que ia aproximar o G20 das pessoas, tudo o que restava eram as zonas de segurança vermelhas e azuis. Enquanto 20 mil policiais ocuparam a cidade, seus residentes foram convidados a manter-se longe do G20 e até mesmo a deixar a cidade.

Após os confrontos no "Schanzenviertel" e a histeria da mídia contra as "esquerdas radicais" e "extremistas violentos", o humor mudou um pouco, mas a questão subjacente permaneceu, o que fez a cúpula?

A curto prazo, nada disso põe em questão os fundamentos da estabilidade interna alemã. A economia ainda está indo bem e não haverá grandes ataques sociais antes das eleições do Bundestag em setembro. Apesar do fracasso de sua estratégia de cúpula, Merkel ainda aparece como a personificação da estabilidade, um mal menor em comparação com Trump, Putin, May ou Erdogan.

No entanto, a perda de legitimidade também mostra que todo o cenário, mesmo a relativa estabilidade da República Federal, está em bases instáveis. Por um lado, a UE e, portanto, o imperialismo alemão, estão cada vez mais pressionados pela concorrência global. Por outro lado, terá que recorrer a iniciativas políticas, econômicas e militares mais drásticas para tentar recuperar o terreno perdido na luta pela redivisão do mundo.

O fato de a cúpula em Hamburgo ter produzido tão pouco deixou uma coisa clara: o G20 é cada vez menos um lugar para o acordo sobre políticas comuns ou estratégias conjuntas pelas grandes potências. Em vez disso, é agora quase exclusivamente um lugar para lidar com os conflitos regionais ou mesmo globais no Oriente Próximo e Oriente Médio, na Ucrânia ou no Mar da China Meridional, que são resultados da formação de novos blocos comerciais e alianças políticas.

Importante, como os protestos e bloqueios em massa, como o de Hamburgo, o G20 só pode ser derrotado se for criado um movimento global contra a guerra, o militarismo, as intervenções imperialistas e em solidariedade com as batalhas por libertação dos trabalhadores, que pode coordenar a ação nas empresas e nas ruas. Só podemos ganhar quando nos opomos ao G20 e à ordem imperialista com uma Internacional de resistência e de luta por outra sociedade, uma sociedade socialista.

 

1- O FAZ (Frankfurter Allgemeine Zeitung) - Jornal Geral de Frankfurt - é um grande jornal da Alemanha, de tendência conservadora. (Talvez poderia ser mais ou menos comparado com o jornal Folha de SP)

 

 

 

Traduzido por Liga Socialista em 29 de julho de 2017