O “Dia Nacional de Mobilização e Paralisação” e o movimento no Brasil

05/09/2013 14:42

Rico Rodrigues

Na sexta-feira passada, dia 30 de Agosto, foi o “Dia Nacional de Mobilização e Paralisação”, chamado pelas centrais sindicais brasileiras, para lutar por uma pauta de nove reivindicações, acordadas entre as centrais como pauta única.  

 

Esta foi a segunda mobilização nacional, depois do 11 de Julho passado, e é uma reação das lideranças sindicais às passeatas que sacudiram o país em Junho desse ano.

 

Da mesma forma que no 11 de Julho, os grandes jornais não deram muita atenção às mobilizações. Quando a Folha de São Paulo saiu no dia 12 de Julho com a manchete que “Protestos tem baixa adesão”, dedicando apenas uma pequena nota afirmando que teve bloqueios em rodovias. Nada mais.

 

A última vez a imprensa queria minimizar os protestos, desta vez procurou ignorar. Mas na verdade as mobilizações não foram tão marginais como nos quer vender a imprensa capitalista. Já no 11 de Julho teve protestos e greves em todo o país. Somente em São Bernardo saíram cerca de 70.000 trabalhadores e trabalhadoras as ruas, muitos deles em greve. Várias rodovias em todo o país foram bloqueadas por manifestantes. O porto de Santos, maior porto de América Latina, foi fechado por várias horas. Os números divulgados pela imprensa de participantes dos protestos foram cerca de 100.000, sendo que na verdade esses números foram bem maiores.

 

Agora, no dia 30 de Agosto ocorreram atos em pelo menos 24 estados do Brasil. Em São Paulo, teve uma manifestação com cerca de 3.000 pessoas, partindo da Praça de República e chegando ao MASP. Segundo a CSP-Conlutas, em São José dos Campos 27.000 trabalhadores e trabalhadoras de 25 fábricas estavam paralisados. Trabalhadores, trabalhadoras e estudantes fecharam o portão principal da USP na manhã e incendiaram pneus na estrada. Houve greves estaduais na educação no Paraná e no Piauí, além dos professores e professoras já paralisados em Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. O transporte público foi atingido por paralisações em pelo menos sete capitais: Fortaleza, Salvador, Natal, Belo Horizonte, Porto Alegre, São Luís e Palmas. Também teve paralisações de outras categorias, como petroleiros, químicos e construção civil em vários estados. 

 

Da rebelião da juventude à mobilização dos sindicatos

 

A história que nos quer vender a grande mídia desse país tem, portanto, pouco a ver com a realidade. Na verdade essas mobilizações pelas centrais sindicais figuram entre as maiores da história sindical do Brasil.

 

Logo após o 11 de Julho destacou-se que as manifestações de Junho conseguiram mobilizar mais manifestantes. Isso provavelmente é verdade. Mas os protestos chamados pelas centrais sindicais tem importantes características que as manifestações de Junho careciam. Primeiro eles possuem uma pauta unificada e clara. Segundo eles aconteceram numa maneira coordenada e planejada. E terceiro, o mais importante, eles atingem diretamente a produção, a economia, a fonte de lucro para o capital. Nesse sentido eles tem o potencial de serem muito mais perigosos para os capitalistas nesse país.

 

Mas, por outro lado, temos que reconhecer que algumas das críticas das manifestações em comparação com Junho também têm algo de verdade. Mesmo mobilizando a classe trabalhadora, paralisando importantes setores da economia e do serviço público do país, eles não tiveram o grande efeito sobre o Brasil e o mundo como tiveram as passeatas de Junho. Se a mídia certamente contribui para isso, está longe de ser simplesmente uma invenção dela.

 

As paralisações organizadas pelas centrais tem os seus efeitos sobre o governo, que já sinalizou abrir negociações sobre os assuntos e provavelmente vai ser forçado a se mover em alguns pontos (com certeza ignorando a maioria). Mas as passeatas de Junho sacudiram o país, chegaram à atenção internacional, fizeram os políticos de todas as colorações partidárias se moverem nervosamente e abrirem discussões e processos em diversos setores.

 

O controle sobre a situação

 

A principal razão para isso é o fator de controle sobre as massas que se movimentaram. Apesar da classe trabalhadora organizada, que mostrou nos dias 11 de Julho e 30 de Agosto, ter um potencial muito mais perigoso para os capitalistas, ela está politicamente controlada por uma liderança. A ideologia dessa liderança é o reformismo, com maior expressão no campo político com cara do PT, e como protagonista nas mobilizações a maior central sindical do país, a CUT.

 

Os capitalistas e todos os políticos sabem muito bem que a classe trabalhadora está controlada por essas lideranças, e por isso, eles têm pouca coisa a temer. Se a pauta das centrais consiste certamente em sua maioria em pontos em que eles não vão querer recuar – como a questão da terceirização, as 40 horas semanais e os leilões de petróleo, entre outros - eles sabem que podem resolver esse problema nas negociações, onde o próprio PT vai figurar como intermediário.

 

Ao contrário, as massas saindo às ruas em Junho estavam sem controle. Isso é um grande problema para os capitalistas e os políticos. Ninguém sabia que direção as manifestações iriam tomar, e para qual lado eles vão. Essa característica deixou os poderosos do Brasil muito nervosos.

 

A burocracia sindical

 

Os sindicatos brasileiros tem um poder de mobilização muito grande, os dias de protestos mostraram isso. Mas os sindicatos são controlados por uma burocracia sindical que está ligada a diferentes setores do poder do estado capitalista brasileiro. Eles foram forçados a se mover, ante os acontecimentos de Junho. Na verdade eles não queriam isso. O PL 4330, assim como as outras pautas já estavam lá antes, algumas como a reforma agrária, inclusive, por décadas. Então, as pautas não podem ser a razão da mobilização. Se eles realmente queriam mobilizar, já teriam feito isso muito antes.

 

Assim, está claro que eles não querem mudar realmente as relações de poder neste país. Isso é uma característica muito típica de uma burocracia. Se o movimento sindical brasileiro teve seus ascensos nos anos 80, querendo revolucionar esse país, protagonizando a mobilização do povo contra a ditadura militar e contra o capitalismo, hoje as lideranças sindicais estão assustadas pelo maior movimento de massas após 20 anos. As burocracias encontraram seu espaço no poder. Esse processo foi principalmente forçado desde a chegada do PT ao poder no governo federal, em 2002.

 

A própria CUT já saiu “com o freio puxado” nesse 30 de Agosto. A CSP-Conlutas, sendo uma central muito menor que a CUT, teve uma mobilização parecida ou maior no país. Ao contrário do 11 de Julho, a CUT – ou a CNM, Confederação dos Metalúrgicos filiado à CUT – não voltou a mobilizar os metalúrgicos do ABC para a greve, assim como a grande maioria de suas entidades organizadas.

 

As lideranças sindicais também não apresentam nenhum plano como continuar na mobilização para conseguir as reivindicações, o que fazer caso o governo não recue – que é muito provável na maioria dos pontos.

 

Os sindicatos seguem sendo a organização da classe trabalhadora mais forte e poderosa. Porém, também é verdade que essas lideranças e as organizações que eles lideram, não constam uma alternativa de organização para os milhões que foram as ruas em Junho, principalmente jovens. Estes manifestantes não queriam apenas algumas reformas, algumas mudanças no jogo de poder, agradando mais ou menos a estes ou aqueles grupos articulados no sistema parlamentar. Eles queriam realmente mudar esse país.

 

Por um novo partido revolucionário!

 

Mas, apesar de toda a euforia sentida nas ruas, as massas jovens também precisavam e precisam ainda fazer suas experiências. Quebrado o gelo do cotidiano, mobilizado uma multidão nas ruas, sentindo que de repente se possui o poder de mudar essa realidade, também se experimentou que rapidamente tudo voltou a se acalmar. As manifestações desarticuladas e espontâneas não somente não levaram a “mudar tudo” automaticamente, se não até correram o perigo de ir completamente em outra direção – com grupos da direita organizada, influenciando e disputando a liderança do movimento.

 

Assim, existe uma coisa que os poderosos, os capitalistas, ainda odeiam e temem mais que uma massa mobilizada sem controle. Isso é a massa do povo, da classe trabalhadora, que consegue construir sua liderança revolucionária. Ou seja, sua própria organização, orientada não apenas a conquistar um lugar na mesa de negociação, mas para acabar com o sistema de exploração de muitos por alguns, o sistema capitalista.

 

É por isso que a mídia brasileira e internacional se apurou a afirmar e apoiar que a “nova massa” não tem nem liderança, nem organização. 

 

Assim existe hoje uma geração no Brasil que não vê nenhuma opção nas forças políticas existentes no país. Essa geração entrou por primeira vez no palco da política nesse ano e mostrou o seu poder, o seu grande potencial. Para eles, o PT e as entidades ligadas, como a CUT, não são mais uma conquista histórica da classe trabalhadora brasileira, que certamente significam para muitos militantes das gerações anteriores. Mas, muito menos, o PSDB ou o PMDB servem como alternativa para eles. Para não mencionar os inúmeros pequenos partidos burguesas existentes, disputando cada um suas migalhas do poder institucional.

 

Se isso é verdade, também é um fato que os partidos existentes de esquerda não constam como uma alternativa. Essa geração percebe que não existe uma força política que representa os interesses políticos da maioria da população, das classes oprimidas. E nem existe uma clara ideia política na cabeça de milhões de jovens que vão para rua, não somente no Brasil como também em muitos outros países.

 

Por isso, a grande tarefa é construir uma própria força política. Uma organização que vai além de duas semanas extraordinárias. Certamente esse processo já começou, com milhares de jovens se organizando em diversos grupos e entidades no país, nas universidades, nos bairros, nos sindicatos, nas empresas, fazendo discussões e experiências importantes.

 

Precisamos analisar as experiências passadas e ir a frente, construindo novos poderes. Sem organização política, não vamos conseguir mudar esse mundo. Precisamos finalmente conseguir construir a nossa força revolucionária, um partido revolucionário, capaz de organizar a revolução e abrir uma nova etapa da história da humanidade.

 

Viva o socialismo!