O apartheid brasileiro e a Copa do Mundo

08/05/2014 11:54

Eloy Nogueira

Depois das mobilizações de junho e julho de 2013, aquilo que até então eram apenas manchetes da mídia empobrecida de conteúdo, passou a ter outro sentido. Foi exatamente nessas mobilizações que o Brasil e o mundo souberam do caso Amarildo. Um trabalhador negro, servente de pedreiro, 47 anos, morador da comunidade da Rocinha, que “sumiu” no dia 14 de julho, após ter sido conduzido pelos policiais à Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha.

Faixas em todas as manifestações exibiam a pergunta: Onde está Amarildo? A pergunta ganhou as redes sociais e em curto espaço de tempo, já era assunto global. A Anistia Internacional passou a cobrar das autoridades o desfecho do caso Amarildo.

O corpo do pedreiro Amarildo não foi encontrado, mas a cobrança sistemática levou a uma investigação que acabou descobrindo que o pobre servente de pedreiro foi preso, torturado e executado pela POLÍCIA. Os responsáveis foram identificados, presos e processados.

Mas o que o caso Amarildo tem a ver com a Copa do Mundo?

Foi exatamente nas manifestações contra o aumento da tarifa do transporte público que acabou se tornando também em manifestações contra a realização da Copa do Mundo de Futebol no Brasil, que o caso Amarildo explodiu. Amarildo acabou sendo transformado em um ícone das lutas na procura por “desaparecidos”.

A partir de então, temos visto muitos casos que passaram a ser denunciados, envolvendo o principal órgão repressor do estado burguês, a POLÍCIA. Diversos casos envolvendo a polícia na tortura e execução de jovens da periferia do Rio de Janeiro estão constantemente nas capas dos jornais, muitas vezes colocando-os como traficantes que foram mortos em troca de tiros com a polícia. Vários casos já foram desmentidos.

Mas isso não é privilégio do Rio de Janeiro. Em São Paulo temos visto também muitos casos de execução e de ações violentas da polícia, principalmente quando se trata da retirada de moradores sem teto, quer de prédios ou terrenos ocupados, quer de locais no centro onde haja concentração desses pobre-coitados.

A última tragédia ocorreu no dia 22 de abril, foi a do bailarino Douglas Rafael da Silva, conhecido como DG, que atuava no programa “Esquenta” da Rede Globo. Segundo versão oficial, durante uma troca de tiros entre traficantes e policiais, no Morro Pavão-Pavãozinho, DG foi atingido e morreu. Versões populares afirmam que DG foi assassinado pela polícia. No mesmo dia também morreu o jovem Edilson Silva.

Uma manifestação organizada pela mãe de DG, Maria de Fátima da Silva, exigia o fim da violência policial, com faixas e cartazes levados pelos moradores da Comunidade.

Além disso, recentemente vimos também o assassinato do adolescente que liderou a convocação dos “rolezinhos” (encontros de adolescentes das periferias nos shoppings). Segundo notícia divulgada pela mídia, foi morto ao final de um baile funk por outros jovens que o atingiram com vários chutes na cabeça. Por quê? Teve algum comando por trás desse ato bárbaro? A quem interessava a morte do adolescente que convocava outros adolescentes para fazer “rolezinhos” nos shoppings?

Agora sim. Está ficando claro. Estamos diante de uma política de segregação econômica/racial, uma “limpeza” nos grandes centros, principalmente aqueles que irão receber eventos da Copa do Mundo de Futebol. Isso mesmo! Estamos falando de um regime de apartheid, que até então era velado e agora está se tornando cada vez mais claro. Os grandes centros, os shoppings, as “arenas de futebol” (antigos estádios), as praias e tudo mais, só podem ser usufruídos pela classe dominante, pelos turistas estrangeiros e seus dólares.

Os casos de torturas, desaparecimentos e execuções de jovens moradores da periferia são cada vez mais constantes e por incrível que pareça, parecem normais. O caso Amarildo foi uma exceção, pois coincidiu com as manifestações. E os outros “Amarildos” que são executados diariamente pelas forças repressivas do estado (polícia) ou pelas repressões fascistas (milícias)? São milhares de casos que muitas vezes terminam enterrados em lixões e que ninguém saberá dizer o que aconteceu.

Essa política é conhecida e foi muito usada na África do Sul, onde a polícia utilizava violência descomunal para que os negros se mantivessem longe dos locais destinados aos brancos. É exatamente o que estamos vendo no Brasil. Os pobres, em sua maioria negros, são atacados até mesmo em suas comunidades, com o intuito de serem intimidados com as humilhações, torturas e execuções sumárias. Os ataques são organizados pela polícia, pelas milícias e também por justiceiros.

Esse tipo de polícia, herdeira dos métodos da ditadura militar, não interessa à classe trabalhadora. Ela existe para defender os ricos e suas propriedades, por isso ela ataca e executa trabalhadores.

É preciso dissolver as atuais polícias e criar uma única Polícia Civil Unificada e totalmente desmilitarizada. Esta polícia deve ter como principal característica o controle de suas ações pelas entidades dos movimentos sociais e associações de moradores, para que ela não mais sirva aos interesses dos ricos e poderosos e passe a defender os interesses dos trabalhadores e da população negra e pobre das periferias. A população deveria ter o direito a eleger os chefes de polícia com mandatos revogáveis a qualquer momento. Os policiais devem ter direito à sindicalização e a eleger seus superiores.

A classe trabalhadora precisa urgentemente aplicar sua capacidade de auto-organização e criar seus grupos de defesa, controlados pelos próprios trabalhadores e moradores das comunidades. Seria uma única polícia, desmilitarizada e que esteja sob o controle dos movimentos sociais e sindical e que seu objetivo seja a defesa dos interesses dos trabalhadores de da população pobre das periferias e das minorias oprimidas.

Como disseram Marx e Engels, no Manifesto do Partido Comunista, “Os trabalhadores nada têm a perder a não ser suas cadeias.”

Somente uma sociedade verdadeiramente democrática e socialista pode trazer a verdadeira liberdade à classe trabalhadora.

  • Pelo fim do apartheid brasileiro.
  • Contra a política de extermínio dos trabalhadores pobres e da juventude negra.
  • Em defesa da classe trabalhadora.
  • Pelo fim da polícia. Pela organização de grupos de defesa da classe trabalhadora.
  • Por uma sociedade democrática e socialista.