Primavera Turca: a praça Taksim para os trabalhadores! Abaixo Erdogan!

10/06/2013 18:01

Georg Ismael - 6 de Junho de 2013

 

Há mais de uma semana que a Turquia está sendo tomada pelos maiores protestos de massas desde mais de uma década. O que começou na sexta-feira, dia 31 de Maio, como protestos pacíficos contra a construção de um hotel na praça Taksim, em Istambul, chegou a ser uma revolta em todo o país contra o primeiro ministro Erdogan e o partido em poder, o AKP. E ainda mais que isso: esses protestos atuais têm efeitos muito além da Turquia.

 

Do protesto no parque Gezi...

 

Quando começaram a mover as escavadeiras na praça de Taksim, na noite de domingo, dia 28 de Maio, para tirar as árvores próxima ao parque Gezi, os primeiros protestos se formaram. O parque, situado numa área central da cidade, deve ceder lugar a um hotel e um Shopping – símbolos da política do AKP. Já hoje é prognosticado que mais de 11 Shoppings em Istambul foram planejados e construídos desnecessariamente. No entanto está planejada a construção de mais de 110 grandes Shoppings nos próximos anos, 80 deles em Istambul e na capital, Ancara.

 

Para os poderosos os Shoppings são um símbolo de “modernização” e do crescimento econômico. Para grande parte da classe trabalhadora e para muitos pobres são um símbolo para a política neoliberal do governo conservador – islâmico do AKP de Erdogan, de quem muito se fala que quer construir monumentos para si mesmo com essas construções. Mas parece que o compromisso da classe dominante com partes da pequena burguesia e da classe trabalhadora, que prometia crescimento econômico em troca de tranquilidade política, não dura mais.

 

A guerra contra o povo curdo, a repressão brutal do movimento dos trabalhadores – como ocorreu a pouco nas greves na indústria de tabaco – e a diminuição da liberdade de imprensa e de direitos democráticos formaram o terreno fértil para o enriquecimento do capital turco e estrangeiro. Já no ano passado aconteceram vários protestos isolados contra essas circunstâncias, também em terreno não curdo. A luta pelo parque Gezi, umas das poucas áreas verdes em Istambul e um polo de referência importante para o movimento dos trabalhadores, foi, portanto o desencadeador, não a razão pelas protestas atuais.

 

… a revolta em todo o país

 

Durante toda a semana aconteceram choques entre manifestantes e a polícia, que quer empurrar a demolição do parque a todo custo. Utiliza spray de pimenta, cassetetes e incendeia as barracas. Mas depois de pouco tempo os manifestantes voltam – com mais participantes que antes. Parecia a demolição iria ser impedida, depois que parlamentares do partido curdo BDP e do partido nacionalista – kemalista CHP pediram a investigação da licença para a construção.

 

Mas as aparências enganam. Sexta-feira, quando se tinham reunido mais que 5.000 ativistas, maioria deles jovens, a polícia atacou. A violência foi tão dura que de acordo com alguns ativistas ocorrerão até mortes. A polícia lança gás lacrimogêneo direcionado, para que os projeteis atinjam os manifestantes. Usa canhões de água misturada com spray de pimenta. Mas a violência do regime de Erdogan é como óleo no fogo – levou a explosão social.

 

O efeito de solidarização é imenso. Dentro de pouco tempo massas de pessoas dos bairros de trabalhadores saem as ruas de Istambul. Sobre tudo jovens e mulheres lutam na primeira fila. Partes da pequena burguesia também se solidarizam. Discotecas ficam fechadas, comerciantes e moradores abrem as portas para ajudar aos feridos – até um apresentador famoso de televisão suspendeu seu show e chama para a luta.

 

Em batalhas de rua durando horas, conduzidas pela polícia com dureza incrível, os manifestantes tentam reconquistar o parque e expulsar a polícia odiada. No sábado eles conseguiram conquistar a praça de Taksim. Entretanto o protesto passou para 70 cidades. As reivindicações também passaram a ser mais radicais. Escutam-se cada vez mais palavras de ordem que exigem a derrubada do governo.

 

Mas a violência por parte do governo também aumenta. Se a polícia teve que fugir da praça Taksim, ela ataca em outros bairros da cidade. Centenas foram presos, muitos foram feridos. O discurso de Erdogan foi mais uma provocação que deixou claro que ele não quer nenhum compromisso, mas sim a confrontação aberta com a classe trabalhadora.

 

Ele chama as pessoas nas ruas de “saqueadores, terroristas e extremistas”. Ele mesmo seria, ao contrário, um “servidor do povo”. Antes de viajar ao estrangeiro avisou que seria investigado se a violência da polícia teria sido “adequada”, mas para as reivindicações políticas ele só tem desprezo. Sobre os protestos no parque Gezi disse: “Vocês querem árvores? Podem ter árvores. Talvez possamos até colocar alguns nos seus jardins.” Se nega a suspender a construção do projeto, apesar de todos os protestos. Em favor dele trabalha a censura da imprensa e a lealdade da grande mídia ao governo, mas nesta extensão dos protestos agora já não se pode manter em segredo.

 

Falsos amigos

 

A razão para isso é mais que a solidariedade com a resistência. O fluxo de informações tampouco pode parar totalmente, sem parar toda a internet – passo que poderia provocar uma situação de “tudo ou nada”.

 

Isso também ninguém quer – sobre todos os políticos e as políticas mentirosas dos EUA e da União Européia. Depois de dias de confrontações sangrentas começam a mencionar que a violência seria “preocupante” e que se deveria atuar de maneira “adequada”. O governo alemão comentava através do encarregado de direitos humanos Markus Löning que ele seguia “o desenvolvimento da situação em Istambul e outras cidades da Turquia com preocupação”. A liberdade de expressão e reunião seriam “direitos fundamentais, que precisam ser preservados e protegidos”. Faz apenas uma semana, dia 1 de Junho, que a manifestação de “Blockupy” contra a política desastrosa na Europa diante da crise em Frankfurt, Alemanha, foi brutalmente atacado e impedido pela polícia alemã.  

 

Eles estão preocupados principalmente pela desestabilização do governo, que cumpre com as privatizações e a política neoliberal, sobre tudo em interesse dos grandes capitais europeus. Não é a violência do estado em si que está sendo criticada. O que é preocupante para eles é a “desproporcionalidade”, que levou a resistência massiva. Algo similar aconteceu em Frankfurt, quando a polícia queria acabar com a manifestação.

Mas também dentro do movimento tem falsos amigos, sobre tudo o partido kemalista CHP (seguidores do fundador do estado da Turquia, Kemal Atatürk). Pode ser que ele pareça progressista ante o AKP e Erdogan pelo reclamo da secularidade, mas visto da política social esse partido é uma ameaça pelo menos tão grande quanto o governo atual. O CHP é defensor consciente da guerra contra a população curda. Também não é contra as políticas de privatizações em favor do capital. Só quer mudar alguns procedimentos – ele mesmo quer, em breve, executar a política do capital em vez do AKP.

 

Mas existe um fato que distingue o CHP e o AKP, que pode ser importante. O CHP tem laços fortes com o exército e os generais, que estão revoltados pela redução de seus poderes. Enquanto os protestos estão dirigidos contra o AKP, o CHP tenta se perfilar como oposição. Mas se os protestos levarem a derrubada do governo, o CHP tomará imediatamente o poder, apoiado pelos generais do exército, uma vez que a classe trabalhadora não possui uma alternativa.

 

Mais um amigo falso é o presidente turco Gül. Enquanto Erdogan manda a polícia reprimir fortemente os manifestantes, se burla deles e rejeita qualquer compromisso. Gül quer se apresentar como presidente “perto do povo”. Criticou a polícia, reivindicou a “repensar” a atuação do governo e se posicionou como defensor da “democracia”. Ninguém deveria se deixar enganar por isso. Gül não é somente do mesmo partido de Erdogan. Também a divisão de papeis – aqui o Erdogan “duro” e ali o Gül “compreensivo” - foi ensaiada várias vezes nos últimos anos, para enfraquecer protestos contra medidas do governo. Gül sinaliza disposição de assumir compromissos, enquanto as medidas do governo são realizadas substancialmente.

 

Por uma primavera turca dos trabalhadores e da juventude!

 

No momento o movimento está na ofensiva. Está crescendo e conquistando espaços. Mas em breve ela vai encontrar seus limites, caso não consega elaborar uma perspectiva clara de um contrapoder organizado, que não só representa os protestos contra a violência da polícia e contra o AKP, mas que também possa substituir os dois. Isso não é possível nem com partidos como o CHP, nem com “apoiadores do ocidente democrático”.

 

Também, se o movimento operário está organizadamente e politicamente dividido, a atual situação oferece uma oportunidade histórica de superar esta fraqueza.

 

Assim desde quarta-feira, dia 5 de Junho, muitos sindicatos chamaram para greve e manifestações. É indispensável que essas greves sejam ampliadas a uma greve geral por tempo indeterminado. Não é de se estranhar que muitos burocratas sindicais também não querem isso. Mas isso pode ser superado se a esquerda turca chamar e organizar assembleias nas empresas e nos movimentos de greve para elegerem os comandos de greves, comprometidos com as bases. O mesmo precisa ser organizado nos bairros das cidades. O movimento precisa construir organizações que sejam capazes tanto de defender os bairros contra a violência da polícia quanto de discutir e organizar a resistência politicamente. Igualmente importante para o movimento operário é a distribuição de seus ideais entre os soldados da base do exército, para convencê-los a não participarem de qualquer repressão e a apoiarem as reivindicações da classe trabalhadora, separando-os assim, de seus generais.

 

Para ter uma perspectiva o movimento precisa reivindicações políticas claras, que vão  além da retirada da polícia e de algumas reformas democráticas. A reivindicação da derrubada de Erdogan precisa ser complementada com conteúdo político – com uma resposta à questão: quem deveria substituir a Erdogan e com que programa? Um governo do CHP significaria passar do mal ao pior.

 

Na greve geral política, para conter a violência da polícia, a construção de organizações parecidas a conselhos e de autodefesa seriam uma base importante para um governo dos trabalhadores e dos camponeses, que seria baseado nestes órgãos. A intensificação da luta e uma greve geral política levantaria a questão de quem está no poder – a burguesia turca ou a classe trabalhadora. O fim da guerra contra o povo curdo, das privatizações e dos ataques sociais a classe trabalhadora e as classes médias são incompatíveis com uma Turquia capitalista, por mais “democrático” que seja. Também o poder do exército não se pode quebrar sem uma revolução. 

 

Se isso der certo, se a classe trabalhadora na Turquia for capaz de formar um partido baseado num programa revolucionário, isso não só tiraria a burguesia turca como também daria a liberdade a povos suprimidos como o povo curdo. Seria também um fogo poderoso contra a crise na Europa – sobre tudo na Grécia. No oriente médio seria um modelo de como se pode quebrar o poder das “panelinhas”.

 

Participem de atos e manifestações de solidariedade ao povo turco em frente das embaixadas e consulados turcos! Os protestos de massa na Turquia precisam de nossa solidariedade!