Vem pra rua vem, contra o aumento!

14/06/2013 13:28

Vem pra rua vem, contra o aumento!

Rico Rodrigues - 14 de Junho 2013

O movimento contra o aumento da passagem de ônibus está ganhando força esses dias no Brasil. No Rio de Janeiro e em São Paulo as manifestações estão crescendo cada vez mais. No Rio teve até 8000 pessoas na rua quinta-feira, dia 13 de junho. E em SP passou de 2.000 para 8.000 na terça-feira, dia 11, e para 15.000 na quinta-feira.

Já não se trata de manifestações de organizações de esquerda. Virou movimento mesmo. Participam pessoas das diferentes idades e ocupações, apesar de o movimento ter uma imagem geral muito jovem. Pois são, uma vez mais, os jovens que mais sofrem com essa política. As pessoas ao lado da manifestação em SP estão cumprimentando das janelas, manifestando o apoio ao movimento.

Também não se trata mais só de R$ 0,20. Um manifestante em SP tinha expressado esse fato num papel: “Feliciano, inflação, mensalão + R$ 0,20”. Os 20 Centavos foram “a gota d’água”, e passaram a ser como uma válvula de frustração e revolta política de grande parte da população, sobre todo da juventude.

As acusações de “vandalismo” e a repressão

A repressão do movimento está superdura, sobretudo em SP. Muitas pessoas se lembraram de imagens da ditadura ante uma verdadeira “guerra” nessa quinta-feira em SP. A repressão foi toda preparada. Quarta-feira, depois do ato da terça, todos os jornais escreveram sobre a “violência” da manifestação. Na terça-feira o ato estava descendo a Rua Tabatinguera, perto da Praça da Sé, quando um ônibus na rua pegou fogo. Só que esse ônibus apareceu do nada. Estava lá, de repente, sem motorista, nenhum outro carro, nada. De repente pegou fogo. Os manifestantes ao redor ficaram assustados, todo mundo se afastando. A mídia chegou em seguida para captar as imagens que queriam. Pouco depois a manifestação foi parada ante o terminal Dom Pedro II e atacada violentamente pela policia com bombas de gás lacrimogêneo (o que não impediu os manifestantes de organizarem outra manifestação um pouco depois subindo até a Paulista).

Quarta-feira, todos os jornais escreveram que os manifestantes eram violentos, até queimaram ônibus e atacaram policiais. O governador Alckmin – estando em Paris promovendo a candidatura de SP para a EXPO em 2020, disposto a entregar outros milhões de Reais – chamou os manifestantes de “vândalos” e avisou que não vai permitir mais isso. O prefeito Haddad (PT), não contradisse e afirmou que a PM estava atuando de maneira certa.

Quinta-feira, os jornais anunciaram que a PM iria “jogar duro” desta vez com a manifestação. Foi assim que prepararam a repressão superdura contra a manifestação de 15.000 pessoas, subindo a Av. Consolação. A polícia atirou bombas de gás e balas de borracha contra os manifestantes, que correram e ficaram encurralados na Praça Roosevelt. Numa verdadeira “caça” seguiram as manifestantes até tarde, ferindo centenas e prendendo mais de 200.

Isso tudo foi planejado, promovido por Alckmin e Haddad para reprimir o movimento. Quem quebrou os ônibus foi a própria polícia, para desacreditar o movimento e justificar a violência e repressão. Na quinta-feira outro ônibus pegou fogo atrás da Praça Roosevelt. Pegou fogo do nada. Não tinha ninguém lá dentro para poder fazer isso na hora. Todos que estavam lá em frente viram isso. Foi tudo “armado”, foi a policia mesmo!

O PT com problemas

O movimento em SP está interessante pelo fato de ser o PT, juntamente com o PCdoB, que comandam a prefeitura, desgastando-se cada vez mais. Faz pouco tempo que enfrentaram a greve dos professores, agora com greves dos trabalhadores da saúde e nos trens municipais. E agora, este movimento, que já se transformou em um sério problema.

O PT apoiou o movimento quando ainda estava na oposição! Hoje, o próprio Haddad decreta o aumento e está lado ao lado com Alckmin (PSDB) na repressão ao movimento. Esta semana a juventude do PT convocou os militantes para participar dos atos. O PT se limitou a manifestar que seus militantes poderiam participar, mas como pessoas “individuais”. A presença de duas bandeiras do PT na manifestação de quinta-feira provocou a contestação dos manifestantes que gritavam “Ah, fora o PT!” e “Ei, PT, vai se foder!” E eles tem toda razão!

O desgaste desse partido operário no jogo político burguês está se acelerando e manifestando em vários níveis, seja o mensalão, a política destruidora da Copa e dos Olimpíadas, ou agora na questão do transporte público nos municípios.

A estratégia e tática do movimento

É exatamente esse papel do PT que oferece igualmente chances e perigos para o movimento. E é exatamente esse fato que faz urgente uma discussão ampla e democrática sobre o rumo, a estratégia e a tática. Várias questões estão na pauta agora, como por exemplo:

-        Como atuar ante a proposta de “anulação” do aumento da tarifa feito pelo Ministério Público (que certamente é uma armadilha para a desmobilização)?

-        Como atuar ante a repressão brutal do polícia e que fazer para apoiar e liberar os companheiros presos?

-        Como unir a luta com a greve dos trabalhadores em todo o transporte público?

-        Quais as nossas reivindicações? Se a prefeitura baixar os R$ 0,20, tá acabado?

Portanto apoiamos a sugestão de criação de um comitê de luta para discutir o rumo do movimento e fortalecer a luta, como feito, por exemplo, pela LER-QI. O movimento precisa construir estruturas para poder reagir ante as manobras dos governos e para poder ganhar.

A necessidade de unir a luta com os trabalhadores já é óbvia. Pois uma greve geral no transporte público, junto com o movimento na rua, faria certamente Haddad mudar de opinião rapidamente. O fato de ter uma greve no transporte público e esse movimento contra o aumento da passagem ao mesmo tempo, sem ter vínculo nenhum, demostra um grande déficit de organização que precisa ser superado urgentemente. O Movimento Passa Livre (MPL) deveria lançar uma carta aberta a todos os trabalhadores e trabalhadoras do transporte público com a sugestão de unir as forças e chamar para uma conferência conjunta, para definir as reivindicações comuns. Essa idéia já se manifesta nos atos com a palavra de ordem: “O motorista, o cobrador, me diz ai se seu salário aumentou!”. É necessário também direcionar este chamamento explicitamente ás lideranças dos sindicatos (que provavelmente vão rejeitar toda idéia de unir as lutas). Para mostrar a todos os trabalhadores e trabalhadoras do setor como atuam os seus “dirigentes”.

Também afirmamos que a violência isolada e aleatória não é uma boa tática. Compreendemos a raiva de muitos integrantes das manifestações e rejeitamos energicamente toda a criminalização contra eles, pois a violência direta e indireta do estado é mil vezes maior. Mas também, não adianta gastar nossa energia com ações desnecessárias. É necessário defender-nos contra os ataques da polícia e exercer o direito a manifestação. É preciso conter e direcionar nossa raiva para fortalecer a nossa luta!

A partir disso temos várias outras questões a serem discutidas. Todo mundo sabe que o movimento não é apenas contra os R$ 0,20. Então precisamos discutir que mais queremos e como ampliar a nossa pauta.

Primeiramente, é certo que precisamos lutar pela estatização 100% do transporte público, como defende a grande maioria dos grupos e partidos que participam do movimento. Da forma como é agora, as empresas privadas no setor vão ganhar com certeza, subindo ou não a tarifa. O próprio Haddad afirmou que baixar a tarifa significaria aumentar os subsídios, que nada mais significa que as empresas privadas tem o lucro garantido e a classe trabalhadora vai pagar, ou com tarifas ou com impostos. Tampouco pode ser uma estatização sobre o regime do estado corrupto e degenerado. Então, é preciso instalar uma gestão democrática sob o controle dos próprios trabalhadores e dos usuários.

O grupo LSR, que faz parte do PSOL, propõe também um dia de luta nacional com o lema “direito a cidade”, unificando as lutas pelo transporte público, dos moradores contra os aumentos cada vez mais altos dos aluguéis nas cidades, dos moradores de rua e contra as remoções e o desgaste de bilhões de Reais pela Copa e as Olimpíadas.

Apoiamos esta sugestão! E é óbvio que uma vez conquistado isso não podemos parar por aí. Precisamos montar comitês de luta em todo o país e organizar conferências para discutir a organização. O PT – certamente uma grande conquista da classe trabalhadora brasileira na época – já passou quase completamente para o outro lado e está passando cada vez mais. Mas também não vemos outra formação política até agora que pode representar as variadas lutas. Então fica óbvio que a classe trabalhadora, a juventude e os mais pobres desse país precisam construir uma alternativa, um novo partido!

Também a nossa revolta aqui está estritamente vinculada a acontecimentos muito além de um único país. Nas manifestações contra o aumento da passagem, na cidade de São Paulo, no Brasil, você pode sentir fortemente e muito vivo o espírito da primavera árabe, a luta na União Européia contra os cortes e, sobretudo agora, a luta na Turquia.

Esse é o sentimento que está se desenvolvendo como algo grande nesse tempo, que vamos mudar nada menos que esse mundo, que juntos vamos construir um mundo melhor!

Precisamos pensar grande, e atuar e organizar no lugar onde estejamos!

  •   Pela estatização do transporte público sob controle dos trabalhadores e usuários com a massiva redução das passagens!

  •   Pela greve geral no transporte público para conseguir essa reivindicação e ao mesmo tempo aumento dos salários!

  •   Pela libertação imediata de todos os presos políticos e arquivamento dos processos contra eles! Contra a repressão de nossos movimentos!

  •   Por um dia nacional de luta pelo “direito à cidade”, unificando as diversas lutas ao redor desse tema!

  •   Pela construção de um novo partido revolucionário, em nível nacional e mundial!