A Liga Socialista

Nossa história no Brasil se inicia em uma conferência realizada em Juiz de Fora/MG, nos dias 21 e 22 de janeiro de 2012, que contou com a presença de militantes sindicais brasileiros e também com a presença de militantes da Liga pela Quinta Internacional da Inglaterra, Alemanha e Áustria.

A partir desse momento foi criado um núcleo brasileiro de simpatizantes da Liga, com o objetivo de construirem a seção brasileira da mesma. Esta seção está em construção e foi denominada Liga Socialista.

Nosso objetivo é ajudarmos a classe operária a avançar na luta pelas reivindicações transitórias, até que chegue a luta revolucionária por uma sociedade socialista. Para isso necessitamos ampliar nossos contatos tanto no meio sindical quanto no movimento de juventude.

Liga pela 5ª Internacional

 

Breve história da Liga pela 5ª Internacional

 

Nota: Esse texto foi escrito por Simon Hardy como introdução para o livro “Documents of the League for the Fifth International, Volume 1”, publicado em Londres em 2009. Ele é presentado aqui, traduzido para o português, como “Breve história da Liga pela 5ª Internacional”. Apresenta uma visão geral sobre a trajetória da Liga e alguns dos documentos programáticos mais importantes para a nossa organização. O texto foi um pouco alterado na tradução, devido a sua função diferente no original.

 

As organizações que compõem a Liga pela 5.Internacional são marcadas por uma característica que as diferencia de outros grupos. Como nossos grupos surgiram, muitas vezes como rachas de organizações anteriores, descobrimos uma realidade dolorosa; que não houve uma continuidade ininterrupta do Trotskysmo desde a fundação da 4.Internacional em 1938. Houve, com certeza, várias organizações reivindicando de ser a 4.Internacional: o Secretariado Unificado liderado por Ernest Mandel (1923-1995) e Joseph Hansen (1910-1979), o Comitê Internacional liderado por Gerry Healy (1913-1989), o Comitê Organizador para a Reconstrução da 4ª Internacional liderado por Pierre Lambert (1920-2008) e a Liga Internacional dos Trabalhadores de Nahuel Moreno (1924-1987). No entanto, apesar da origem dessas correntes na 4ª Internacional, o que se tornou claro para nós é que todos eles tinham rejeitado ou falsificado elementos-chave de seu método e os princípios políticos, em suma, de seu programa.  

Em 1983, com a publicação “A agonia mortal da 4.Internacional e as tarefas dos Trotskistas hoje” (“The Death agony of the Fourth International and the Tasks of Trotzkyists Today”) identificamos a quebra com essa continuidade revolucionária com a capitulação do Trotskysmo pós-guerra ao Stalinismo, primeiro na forma de Tito na Iugoslava em 1948, em seguida Mao na China e depois Castro em Cuba. No seu terceiro congresso, em 1951, a 4ª Internacional, sob a liderança de seu secretário da época Michel Pablo apoiado por Ernest Mandel e Joseph Hansen, James P. Cannon e Gerry Healy, começou a abandonar aspectos chave do programa trotskysta.

Concluímos:

“Para nos a tarefa não é “reunificar” ou “reconstruir” a 4ª Internacional desde os fragmentos degenerados do Trotskysmo, mas agrupar os melhores elementos desses fragmentos para uma nova bandeira programática. Em primeiro lugar isso significa que Trotskistas genuínos devem colocar como sua principal tarefa a reelaboração do programa trotskysta, adequando-o ao novo período de crise econômica e política que se abriu nos anos 70 / 80.”

Quando começamos a reelaborar as contribuições de Trotsky a tradição revolucionaria e empreendemos a tarefa de construir uma tendência internacional, se tornou claro que todos os reclamantes citados acima estavam firmemente apagados a suas próprias “tradições” particulares e que todos representavam severas distorções centristas e uma degeneração do método e do programa de Trotsky. Isso incluiu uma atitude anti-leninista a construção do partido (as vezes muito sectário na moda do terceiro período do Stalinismo; as vezes oportunista numa maneira Menchevique) e uma ignorância ou uma revisão irrefletida das lições de gerações anteriores da luta comunista. 

Ao longo do tempo a Liga pela 5ª Internacional tem produzido vários documentos e resoluções que procuram tratar dos entendimentos básicos de nossa organização sobre questões chaves que enfrentam comunistas.

Uma das primeiras prioridades como grupo jovem era a análise de reformismo. O primeiro número da revista teórica “Permament Revolution” de Workers Power, o grupo da Inglaterra, publicado em 1982, continha extensas teses sobre a questão do reformismo na classe operária. Na época, Workers Power estava em discussões com Trotskystas da Alemanha, França, Itália e Áustria, como também no Reino Unido, onde o “Trotskysmo” foi dividido entre os que caracterizavam os partidos social democratas em geral como partidos burgueses, essencialmente não diferente de partidos cristão democratas ou conservadores, e os que estavam comprometidos com um entrismo a longo prazo, na crença que tal partidos representariam uma fase inevitável no desenvolvimento político da classe trabalhadora. 

Para os primeiros, cada uso de táticas ante os partidos reformistas de massas, como o apoio eleitoral crítico ou cobrando das lideranças a promoção de interesses dos operários, era uma semeadura de ilusões entre os operários que carecem de consciência de classe. Ao contrário disso, a segunda corrente achava necessário camuflar seu Trotskysmo atrás de uma linguagem e programas de reformismo de esquerda para poder ficar dentro desses partidos de massas. Nossas “Teses sobre Reformismo” (“Theses on Reformism”), portanto, combinavam uma apresentação da analise marxista clássica de reformismo junto com uma examinação detalhada de táticas de frente única, destinadas a ganhar militantes da classe operária desses partidos reformistas.

Como a nossa organização internacional cresceu, muitas novas tarefas se apresentaram. O encontro de fundação do “Movimento por uma Internacional Revolucionaria Comunista” (MRCI, nas siglas em inglês) foi realizado em Londres em Abril de 1984, no começo da grande greve dos mineiros na Bretanha. Lançou uma declaração de relações fraternais, assinado pelo Groupe Pouvoir Ouvrier (Franca), o Gruppe Arbeitermacht(Alemanha Ocidental), o Irish Workers Group (Irlanda) e Workers Power(Inglaterra). O MRCI adotou a tarefa de elaborar teses sobre os elementos chaves da tradição comunista, partindo particularmente do trabalho dos primeiros quatro congressos da 3ª Internacional (1919-1923) e as resoluções e documentos da Oposição de Esquerda Internacional e da 4ª Internacional antes de sua degeneração (1923-1948).

Mas, como muitos grupos socialistas também se basearam nesses documentos, reconhecemos que para construir uma Internacional revolucionaria se precisa também concordar sobre como aplicar essa tradição no mundo moderno. O MRCI realizou encontros regulares em nível internacional dos delegados das seções em quais resoluções sobre os acontecimentos na luta de classe internacional foram adotadas; A Polônia e a repressão ao Solidarnosc, a Comunidade Econômica Européia, o grande movimento de greves e o nascimento de Cosatu na África do Sul em 1986, a greve dos mineiros na Bolívia em 1986, Gorbatshev e a desintegração do Stalinismo.

Em 1989, ter ganhado seções em Bolívia, Peru e Áustria, estávamos prontos para codificar esses acordos sobre perspectivas, programa e táticas em um programa internacional e adotar uma constituição baseada em centralismo democrático (antes disso a liderança internacional era composto por delegados das seções e tomou todas as suas decisões primeiro em consenso e depois por maioria).

No encontro depois do massacre da praça Tiananmen, o MCRI adotou o “Manifesto Trotzkista” e, para expressar seu status político e organizatório mudado, mudou seu nome em Liga por uma Internacional Revolucionaria Comunista (LRCI, nas siglas em inglês). A partir daí operamos como uma organização internacional com centralismo democrático e com um programa e um método elaborado.

O Manifesto Trotskista era o nosso principal conteúdo programático e fixou as bases políticas para a escolha de uma reunião trimestral do Comitê Executivo Internacional (CEI) no congresso, que por sua vez optou por reuniões semanais do Secretariado Internacional. Assim como sua predecessora, a LRCI reconheceu a importância do trabalho de escrutinar e reelaborar a tradição comunista. Nós adotamos as “Teses dos Primórdios da Construção do Partido”, um assunto que foi retomado em 2007 quando adotamos a obra “Métodos e Princípios da Organização Comunista”, publicado em nosso jornal “Quinta Internacional”, Vol 3, N.2.

A “Resolução sobre a Caracterização da Classe Operária” (Resolution on the Characterisation of the Working Class) originou-se como um documento na seção alemã da Liga em meados dos anos 90. Foi uma tentativa de esclarecer o que era a classe operária e como ela estava se modificando na Europa e na América do Norte sob o jugo do monetarismo e do neoliberalismo – uma resposta a repetitiva hipótese de que a “classe operária não mais existia” caso não fosse mais baseada primariamente nas fábricas e nas minas.

Outro documento que é muito importante são as “Teses sobre Comunistas e Sindicatos” (Theses on Communists and the Trade Unions). Discutido no CEI em 1996, ele foi adotado como permanente e então encaminhado para demais alterações. Este processo não foi concluído naquele tempo, mas o Secretariado Internacional se encarregou do projeto novamente em 2009, quando a resolução original foi editada a fim de remover referencias obsoletas relacionadas aos trabalhos das sessões da Liga ocorridas nos anos 90. Nós pretendíamos completar os documentos com (i) um resumo e análise do desenvolvimento do sindicalismo nos últimos 30 anos e (ii) uma séria tentativa de transcender as suas limitações diante das condições prevalecentes na Europa Ocidental e na América do Norte. No entanto, esse documento apresenta uma analise sobre o papel dos sindicatos, desde suas fileiras até seu alto escalão, e também um sumário sobre como os comunistas operam nos sindicatos. Dada a importância do sindicalismo na luta pelo socialismo, nós esperamos que o artigo seja um guia útil para os comunistas que se encontram trabalhando na linha de frente,  como o foi antes, e que uma discussão mais aprofundada e experiências da organização da classe operaria em uma série de países, incluindo o sul da Ásia e a América Latina, permitam que este artigo seja melhor desenvolvido futuramente.

Outros dois documentos focam em dois assuntos problemáticos acerca da tática comunista: a frente única e as táticas eleitorais. Apesar dos longos documentos que a Internacional Comunista produziu sobre a frente única depois dos terceiro e quarto Congressos, e apesar dos extensivos escritos de Trotsky nos anos 20 e 30 sobre o referido assunto, muitos socialistas caem na armadilha da adaptação oportunista aos  lideranças reformistas, tanto de sindicatos como de partidos, ou em abstenções sectárias. As“Teses sobre a frente única” (Theses on United Front) começam com os princípios gerais e então objetiva fornecer um guia para operar a tática por meio de diversas forças, desde a classe operária, passando pela força das classes não-operárias, até a frente única anti-imperialista.

O outro documento cobre o espinhoso assunto das táticas eleitorais. Os caprichos do sistema político burguês se utilizam de numerosas e diversas formações políticas, coalizões e grupos de interesse especial, todos eles visando o voto da classe operária. No mundo imperialista (com exceção dos Estados Unidos) os trabalhadores tem predominantemente optado por partidos operários de cunho reformista que se originaram nas Segunda e Terceira Internacionais, mas esta não pode ser entendida como uma lei universal e a flexibilidade deve sempre ser a palavra de ordem no caso de decisões táticas. Alguns fatores, no entanto, são certeiros, Lenin denominou o Parlamento de um “maldito chiqueiro”, e o principal proposito dos candidatos comunistas é usá-lo como uma plataforma para difundir os posicionamentos revolucionários e ganhar apoio para a única solução que pode garantir uma mudança real para a sociedade, a revolução.

As “30 teses em defesa do Trotskismo” (30 Theses in Defence of Trotzkism) são um breve resumo de algumas de nossas posições essenciais. O documento foi atualizado em 1992 e os pontos apresentados dão conta de fazer um apanhado geral dos principais aspectos sobre o que é e o que não é o Trotskismo. Está incluído por ser um esboço útil dos principais pontos de vista do Leninismo-Trotskismo, mas deveria ser suplementado com uma leitura mais ampla para que se possa desenvolver uma análise mais profunda. Estas teses sobreviveram ao tempo – mas uma nota de explicação está exposta onde quer que nossas posições foram alteradas ou desenvolvidas de uma forma diferente desde o momento de sua publicação.

Atualmente, ao ler as “30 Teses em Defesa do Trotskismo”, muitos camaradas mais jovens podem ficar atordoados pela multiplicidade de nomes e organizações, muitas das quais não são mais tão importantes como costumavam ser ou até mesmo desapareceram. Vale a pena revisar os debates, porque todos eles representam um método ou uma prática que é distinta de uma prática comunista revolucionária genuína.

É uma lição de história que a revolução não possa acontecer sem os seus quadros, trabalhando incansavelmente, sacrificando-se na luta pela libertação da humanidade. Os quadros são formados tanto no fogo da revolução tanto como pela sua aplicação sistemática em educação sobre os métodos Marxistas. Como disse Lenin “sem a teoria revolucionária, não pode haver qualquer ação revolucionária”. Os documentos citados são uma coleção de documentos, desenvolvidos para ajudar nessa tarefa, porém, como sempre, há muito mais para aprender.