Russia: protestos contra cortes na previdência mostram potencial para resistência

13/09/2018 19:05

Svenja Spunck, Infomail 1016, Berlin, 27 August 2018 Wed, 05/09/2018 - 18:30

Traduzido por Alieksiéi, Liga Socialista, Brasil, 11 de setembro de 2018, terça-feira – 10:00

 

Em junho, o governo russo anunciou uma ampla reforma previdenciária. A principal mudança é aumentar a idade de aposentadoria para mulheres de 55 para 63 e para homens de 60 para 65. Essa mudança significa, simplesmente, trabalhar até a morte na Rússia, já que a expectativa de vida por lá é de 65 anos.

 

Não é por acaso que essa reforma foi anunciada durante a Copa do Mundo. Seguindo o antigo princípio "pão e circo", esperava-se anunciar as mudanças enquanto a população estava distraída e aproveitando o espetáculo. Mas, embora os protestos tenham sido inicialmente proibidos por "razões de segurança", a insatisfação popular foi desencadeada nos primeiros grandes protestos em todo o país, assim que a Copa do Mundo acabou.

 

Na Rússia, a aposentadoria não significa de modo algum que as pessoas não trabalhem mais. As aposentadorias são apenas um pequeno apoio financeiro, cerca de 120 euros, que é pago aos trabalhadores mais velhos. Até 14 milhões de pessoas acima da idade de aposentadoria ainda estão empregadas em seus empregos. O aumento da idade de aposentadoria significará ainda mais pessoas em condições precárias e o empobrecimento dos setores mais velhos da população, mas também tem o potencial de aumentar o desemprego geral.

 

O salário mínimo na Rússia, depois de Putin ajustá-lo ao mínimo de subsistência no início deste ano, é de 11.000 rublos (139 euros) por mês. A pobreza também é generalizada entre a população trabalhadora. Cerca de 5 milhões de pessoas vivem com essa renda mínima, apesar de terem empregos em tempo integral.

 

Com o argumento de que o governo deve fazer economias que, supostamente, quer investir em outras áreas sociais, o já baixo orçamento previdenciário deve ser cortado. Não é segredo que os oligarcas russos estão entre as pessoas mais ricas do mundo. No entanto, também está claro que eles estão bem integrados à burocracia estatal e que ninguém jamais sonharia em tocar em seus ativos. Embora haja dinheiro para os projetos militares, de vigilância do Estado e de mega-construção, a população deve engolir as reformas neoliberais.

 

A reforma previdenciária não foi mencionada na época da eleição presidencial de março de 2018. Claramente, Putin percebeu que tal medida não teria grande aprovação. Isto foi então confirmado por uma queda em sua classificação nas pesquisas de opinião assim que o plano foi anunciado. Inicialmente, a estratégia do Kremlin era culpar a Duma, o parlamento russo, pela reforma. Depois de um mês de silêncio, durante o qual o descontentamento cresceu e se tornou mais óbvio, Putin anunciou que também tinha críticas à reforma e garantiria que fosse novamente revisada. Posteriormente, ele anunciou que a idade de aposentadoria para as mulheres aumentará “apenas” para 60.


Enquanto o partido no poder, a Rússia Unida, está agindo como se houvesse discordância sobre o plano, a oposição começou com os primeiros protestos. Enquanto o neo-liberalista de direita Alexei Nawalny também pediu uma manifestação contra a reforma, na realidade são as forças apoiadas pela classe trabalhadora que dominam os protestos. No final de julho, cerca de 12.000 pessoas em Moscou responderam ao apelo do Partido Comunista da Federação Russa de Gennady Zyuganov. Houve também protestos com vários milhares de participantes em outras cidades russas. Durante as manifestações, exigiu-se a renúncia do primeiro-ministro Medvedev e Putin foi chamado de "ladrão". Além do PC, que nos últimos anos atuou consistentemente como a oposição do regime, um amplo espectro de organizações de esquerda participou das ações, estendendo-se inclusive à social-democracia. Alguns participantes e organizadores foram presos. A unidade policial antiterrorista, a "Guarda Russa", também estava presente.

No outono, a reforma da previdência deve ser novamente discutida no parlamento e os protestos devem continuar. Por causa da forte repressão contra a organização sindical e política, a classe trabalhadora russa só tem uma experiência limitada de protesto e organização militante. Mas os protestos das últimas semanas, nos quais também participaram organizações de jovens e mulheres, mostram claramente que a esquerda está a caminho de uma frente única contra os ataques neoliberais.

A extensão dos protestos não só poderia impedir a reforma, mas também ajudar a construir uma oposição de esquerda. A questão da reforma previdenciária e sua rejeição generalizada fornece uma boa base para enfrentar outros problemas da política dominante russa. A demanda por renúncia do governo já foi levantada. A fim de alcançar grandes parcelas da população, a demanda pela expropriação da oligarquia e a introdução de uma pensão mínima que cubra o custo de vida e seja automaticamente ajustada para aumentos de preços também deve crescer.

As demonstrações e ações são um exemplo encorajador e mostram que mesmo o governo de Putin não é inabalável. O que pode ser decisivo é se os protestos vão além das manifestações para um movimento de greve político que pode levar o país a um impasse.