Trump tropical do Brasil

08/11/2018 12:07

29 de outubro de 2018                    -                             

A vitória de Jair Bolsonaro como o novo presidente do Brasil coloca na extrema-direita a administração de uma das 20 melhores nações do mundo. Bolsonaro diz que quer esmagar o "comunismo" e restaurar a "lei e a ordem", colocando os militares no controle das ruas e enchendo a Suprema Corte com seus juízes indicados. Ele quer afrouxar os controles de armas, reprimir os gays e outros elementos "criminosos", apoiar as políticas do presidente Trump e abrir a economia e as florestas da Amazônia para uma "exploração adequada".

Como foi possível a vitória de Bolsonaro nesta eleição? Bem, seu apoio estava no florescente movimento evangélico religioso no Brasil, entre os setores ricos e pequenos negócios que se opunham militantemente ao governo do Partido dos Trabalhadores desde 2002 sob o comando de Lula e depois Dilma, que viam como taxação e regulamentação dos negócios em benefício das famílias de baixa renda e destruindo os valores familiares. Mas a maior razão foi que a maioria dos brasileiros está farta do aumento do crime, do alto desemprego e da corrupção de todos os políticos.

Bolsonaro é visto como o homem para acabar com a corrupção (é claro que isso será o oposto). Para as classes médias, o Partido dos Trabalhadores é visto como "roubar" o país. Lula ainda está sob custódia por corrupção (provavelmente por acusações forjadas e principalmente para garantir que ele não pudesse concorrer à eleição). Mas Bolsonaro ganhou principalmente por causa da desilusão da classe trabalhadora com o Partido dos Trabalhadores. Após o colapso dos preços das commodities nos recursos e na agricultura, a economia entrou em recessão. A culpa por isso e pela corrupção foi colocada à porta do Partido dos Trabalhadores.

Mas Bolsonaro não conseguiu a maioria dos 147 milhões de brasileiros com direito a voto. Embora seja obrigatório votar no Brasil, cerca de 30% anularam ou votaram em branco. Além disso, o Partido dos Trabalhadores ainda é o maior partido da Câmara dos Deputados, que tem 30 partidos diferentes representados. Portanto, não será fácil para Bolsonaro conseguir que suas medidas mais autoritárias sejam aprovadas democraticamente.

O mais importante continua sendo a política econômica.  Como já expliquei em posts anteriores, a economia brasileira está com problemas. O crescimento econômico está estagnado na melhor das hipóteses.

O desemprego está próximo da alta pós-crise global.

Como os ricos não pagam impostos e a desigualdade de renda e riqueza é uma das maiores do mundo, o governo não arrecada receita suficiente para evitar enormes déficits anuais.

Como resultado, o setor público brasileiro tem a maior dívida em relação ao PIB entre todas as economias emergentes.

A solução dos ricos e do governo Bolsonaro será a "austeridade", a saber, ainda mais cortes nos gastos públicos (muitos governos estaduais já estão falidos e carentes de fundos), privatizações e desregulamentação da indústria e dos bancos - mas, acima de tudo, a destruição do plano de aposentadoria do Estado brasileiro (Previdência Pública e Solidária).

Mercados de ações e títulos subiram na esperança de que o Sr. Bolsonaro vá entregar isso. Essas políticas "neoliberais" serão perseguidas pelo provável chefe financeiro de Bolsonaro, Paulo Guedes. Este economista treinado pela Universidade de Chicago é co-fundador do BTG Pactual, que já foi o maior banco de investimento independente do país. Os mercados esperam que Guedes mantenha um congelamento nos gastos fiscais introduzido pelo atual presidente Michel Temer. Eles também o veem introduzindo autonomia formal para o banco central e permitindo que a estatal Petrobras estabeleça preços de combustível em 'níveis de mercado'.

No domingo à noite, após a vitória de seu futuro chefe, Guedes disse que a reforma previdenciária, além de reduzir os "privilégios e desperdícios do Estado", seria uma prioridade para o novo governo. Assim como nos EUA, os brasileiros terão a lei 'populista' e a ordem do presidente supostamente para impedir o crime, ao mesmo tempo em que introduzem reformas 'neoliberais' para ajudar as grandes empresas no Brasil e reduzir a parte da renda destinada ao trabalho.

Como eu disse em um post há um ano, as agências internacionais, investidores estrangeiros e grandes empresas brasileiras querem uma administração no poder por mais quatro anos a partir de 2018 para impor austeridade, flexibilidade de mão de obra e privatizações. Isso aumentará ainda mais a desigualdade. Ironicamente, não reduzirá a dívida do setor público porque o crescimento econômico e as receitas fiscais serão muito baixos. De fato, o FMI prevê que a dívida será muito maior até 2020.

Ao mesmo tempo, mais da metade da população brasileira permanece abaixo de uma renda mensal per capita de R$ 560. Cortar esse nível de pobreza para menos de 25% exigiria produtividade quatro vezes mais rápida que a taxa atual. E não há perspectiva disso sob o capitalismo no Brasil. Isso porque a rentabilidade do capital brasileiro é baixa e continua baixa.

A lucratividade do setor capitalista dominante do Brasil estava em declínio secular, impondo uma contínua pressão descendente sobre o investimento e o crescimento.

  

 

A elite dominante do Brasil enfrenta uma tarefa difícil ao impor controle sobre sua classe trabalhadora e cortar os gastos públicos e os salários, e assim atrair capital estrangeiro significativo. O capitalismo brasileiro ficará preso em um futuro de baixo crescimento e baixa rentabilidade, com paralisia política e econômica contínua. E isso sem uma nova recessão global no horizonte.

 

 

Fonte: Michael Roberts Blog - blogging from a marxist economist (https://thenextrecession.wordpress.com/2018/10/)

 

Traduzido por Liga Socialista em 08/11/2018